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sexta-feira, julho 24, 2026

O neoliberalismo não passa a bola – Revista Cult

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Poucas instituições ocuparam um lugar tão importante na formação da experiência masculina no Brasil quanto o futebol. Muito antes de ensinar um menino a dominar uma bola, ele ensinava outra coisa: pertencer. Pertencer ao bairro, ao clube, à várzea, à torcida, ao time. O futebol nunca foi apenas um esporte, é um espaço de socialização, de aprendizado de regras, de construção de amizades, de rivalidades e de reconhecimento. É uma das principais instituições através das quais diferentes gerações de homens aprenderam a existir coletivamente. E é comum associarmos esse universo à competição, à virilidade ou à afirmação de determinados modelos de masculinidade, porque é mesmo. Tudo isso está presente e merece ser criticado. O futebol também é um espaço de reprodução do machismo, da homofobia, do racismo e de outras formas de exclusão. Porém, agora, quero refletir sobre outras questões do futebol, que não necessariamente estarão desvinculadas com as violências reproduzidas.

Em um campo de futebol, ninguém joga sozinho. O talento individual importa, mas nunca basta. O camisa dez depende de outro jogador que recupera a bola, o atacante depende de quem cria a jogada. O brilho individual encontra sentido apenas porque existe um projeto coletivo capaz de sustentá-lo. Pode parecer uma observação banal sobre um esporte coletivo, mas pode ser que diga muito sobre a maneira como aprendemos a viver em sociedade.

Durante boa parte do século 20, a experiência masculina foi organizada em torno de instituições relativamente estáveis. O trabalho, o sindicato, o quartel, o clube, a igreja, o partido político, a torcida e o próprio futebol constituíam espaços de pertencimento. Eram instituições que ofereciam identidade, reconhecimento e alguma forma de inserção coletiva. Nenhuma delas era neutra. Muitas reproduziam desigualdades profundas e sustentavam hierarquias rígidas e não há qualquer motivo para romantizá-las. Ainda assim, compartilhavam uma característica importante: exigiam que o indivíduo reconhecesse limites para si em nome de algo maior. Pertencer significava abrir mão de uma parcela do protagonismo individual.

Acostumamo-nos a dizer que vivemos uma crise das instituições, os partidos perderam capacidade de mobilização. Os sindicatos deixaram de ocupar o lugar central que tiveram em outros momentos da história. As igrejas se fragmentaram. As formas tradicionais de associação enfraqueceram. O trabalho deixou de oferecer trajetórias estáveis. A própria ideia de pertencimento tornou-se mais instável. A mim parece que o futebol atravesse uma transformação semelhante. Não porque tenha deixado de mobilizar paixões, basta acompanhar uma Copa do Mundo para perceber que continua sendo uma das experiências coletivas mais intensas da vida brasileira. A mudança parece estar em outro lugar: na relação entre o indivíduo e as instituições que ele representa.

Durante décadas, esperava-se que um jogador encarnasse seu clube ou sua seleção. A camisa era mais do que um uniforme, era uma identidade. A expressão “amor à camisa” sintetiza essa expectativa. Não se tratava apenas de vencer partidas, mas de colocar o coletivo acima dos interesses individuais. O craque era celebrado justamente porque fazia o time jogar melhor. Hoje, essa imagem parece conviver com outra lógica.

O jogador continua representando clubes e seleções, mas também administra contratos, patrocinadores, plataformas digitais, campanhas publicitárias, documentários, investimentos e milhões de seguidores. Ele já não é apenas atleta, é uma marca, um empreendimento, uma empresa de si mesmo. Seria um erro interpretar essa transformação como um problema moral ou atribuí-la exclusivamente aos jogadores. Eles não criaram essa lógica e sim formados por ela.

É nesse momento que o neoliberalismo entra em campo. Ele não deve ser compreendido apenas como um conjunto de políticas econômicas, ele reorganiza profundamente a maneira como os indivíduos se relacionam consigo mesmos, com os outros e com as instituições. Seu efeito mais duradouro talvez não esteja na privatização de empresas estatais ou na desregulamentação dos mercados, mas na produção de um novo tipo de sujeito: o empreendedor de si. A concorrência deixa de organizar apenas o mercado, passa a organizar a própria subjetividade.

Essa racionalidade atravessa praticamente todos os espaços da vida social, ela reorganiza o trabalho, as relações afetivas, a educação, a política e também o esporte. Não é casual que o futebol contemporâneo seja afetado pela expansão das casas de apostas, pela monetização permanente da atenção, pela produção incessante de conteúdo para redes sociais e pela transformação dos atletas em gestores de marcas pessoais. Esses fenômenos não representam desvios do futebol, são expressões da mesma lógica que reorganiza a sociedade. O mercado já não financia apenas o espetáculo, passa a organizar sua linguagem, seus valores e suas formas de reconhecimento.

Eu imagino que seja justamente por isso que figuras como Neymar despertem reações tão intensas, não porque expliquem sozinhas a crise do futebol brasileiro, mas porque condensam uma transformação histórica. Neymar interessa menos como indivíduo do que como sintoma, sua carreira foi construída em um contexto no qual a imagem do atleta frequentemente parece maior do que a instituição que ele representa. Fala-se do jogador, mas também da celebridade, do influenciador, do empresário, da marca.O desconforto que isso produz talvez revele algo mais complexo do que uma simples avaliação sobre seu desempenho esportivo. Continuamos esperando que a seleção brasileira funcione como uma comunidade imaginada, um espaço no qual interesses individuais se subordinem ao projeto coletivo. Mas os jogadores são formados por uma cultura que lhes ensina exatamente o contrário: destacar-se, diferenciar-se, administrar a própria imagem e competir permanentemente por atenção. Existe um desencontro entre aquilo que esperamos do futebol e aquilo que a racionalidade neoliberal produz.

As formas tradicionais pelas quais muitos homens construíam pertencimento perderam centralidade, sem que outras experiências coletivas tenham ocupado seu lugar. Quando instituições deixam de oferecer experiências duradouras de pertencimento, não desaparece apenas uma forma de organização social, desaparece também um modo de construir identidades. Durante muito tempo, homens encontraram no trabalho, no sindicato, na igreja, no partido, na torcida e no clube respostas para uma pergunta aparentemente simples: “a que grupo eu pertenço?”. Essas instituições ofereciam reconhecimento, estabeleciam responsabilidades e, sobretudo, lembravam que o indivíduo não existia isoladamente. Havia sempre um “nós” anterior ao “eu”.

O neoliberalismo não elimina a necessidade humana de pertencimento, ele desloca sua forma. Se antes pertencíamos a instituições, agora somos convidados a pertencer a nós mesmos e, com isso, cada sujeito deve tornar-se seu próprio projeto, seu principal investimento e sua empresa mais importante. A liberdade prometida por essa racionalidade cobra um preço alto: a responsabilidade absoluta sobre o sucesso e o fracasso da própria vida. Quando tudo depende exclusivamente do indivíduo, desaparecem também as mediações coletivas capazes de compartilhar responsabilidades e produzir solidariedade.

Vivemos um fenômeno aparentemente contraditório, ou seja, nunca fomos tão estimulados a pensar em nós mesmos como indivíduos autônomos e, ao mesmo tempo, nunca houve tamanha procura por comunidades capazes de oferecer identidade e pertencimento. Não é difícil perceber por que tantos homens encontram acolhimento em espaços digitais organizados em torno de identidades masculinas. Comunidades red pill, influenciadores que prometem ensinar o “verdadeiro” caminho para ser homem, grupos ultraconservadores e outras formas de associação oferecem algo que a sociedade neoliberal tornou escasso: a sensação de fazer parte de um coletivo.

É evidente que esses grupos não reproduzem o pertencimento produzido por instituições democráticas, pelo contrário, frequentemente constroem sua identidade a partir da exclusão de um inimigo comum. Mulheres, feministas, pessoas LGBTQIA+, imigrantes, adversários políticos ou qualquer grupo percebido como ameaça tornam-se elementos fundamentais para consolidar a coesão interna dessas comunidades. O pertencimento permanece, o que muda é a forma como ele é produzido.

Esse aspecto ajuda a compreender por que a masculinidade contemporânea parece tão atravessada por sentimentos de ressentimento, competição permanente e necessidade de reconhecimento. Não porque os homens tenham simplesmente “perdido seu lugar”, como frequentemente afirmam narrativas conservadoras, mas porque as formas tradicionais de produzir pertencimento foram profundamente reorganizadas por uma racionalidade que privilegia o desempenho individual acima da construção de vínculos duradouros.

Nesse sentido, o futebol continua sendo um observatório privilegiado do nosso tempo. Ele parece ser uma das últimas grandes instituições capazes de mobilizar experiências coletivas em uma sociedade profundamente individualizada. Ainda reúne milhões de pessoas em torno de símbolos compartilhados, produz emoções comuns, faz desconhecidos abraçarem-se depois de um gol, nos lembra que existem momentos em que o “nós” parece mais importante do que o “eu”.

Durante décadas, aprendemos que o talento individual só fazia sentido quando colocado a serviço de um projeto coletivo. Hoje somos continuamente estimulados a acreditar que o coletivo existe apenas para potencializar trajetórias individuais. A inversão parece sutil, mas altera a maneira como compreendemos a política, o trabalho, os afetos e até o esporte.

Essa mudança também diz respeito à democracia. Costumamos pensar a democracia como um conjunto de instituições, regras e procedimentos e tudo isso é verdade. Mas a democracia depende também de uma cultura, depende da capacidade de reconhecer que interesses individuais precisam conviver com responsabilidades compartilhadas, da disposição para negociar, cooperar, confiar e aceitar que ninguém realiza sozinho um projeto comum. O futebol ensinou isso, ainda que de forma imperfeita. Em um campo, não basta ser o mais habilidoso, é preciso compreender o tempo do outro, ocupar espaços, confiar, dividir responsabilidades e aceitar que, muitas vezes, o passe importa mais do que o gol. E eu vejo que isso perdeu força e não estou falando apenas de futebol. Vivemos em uma sociedade que celebra protagonistas, líderes carismáticos, empreendedores de sucesso e histórias individuais de superação, admiramos quem acumula seguidores, patrimônio, influência e visibilidade. Somos continuamente convidados a investir em nós mesmos, competir com todos ao nosso redor e transformar nossa existência em um projeto de alta performance. O “eu” tornou-se a principal unidade de medida da vida social. Mas nenhuma democracia se sustenta apenas sobre indivíduos que competem entre si. Nenhum time vence quando todos querem ser o protagonista da jogada. Nenhuma comunidade sobrevive quando o sucesso de um depende necessariamente do fracasso do outro.

No fundo, nunca foi apenas sobre futebol. A todo momento estamos observando uma transformação muito maior: a passagem de uma sociedade organizada em torno de instituições para outra organizada em torno de indivíduos. A substituição do pertencimento pela performance, a troca da camisa pela marca, a conversão do cidadão, do trabalhador, do atleta e até do torcedor em gestores permanentes de si mesmos.

Durante muito tempo, o futebol ensinou milhões de brasileiros e brasileiras uma lição simples: ninguém vence sozinho. O futebol ensinava a passar a bola. O neoliberalismo ensina a segurá-la.



[Fonte Original]

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