Durante décadas, cirurgiões dependeram de telas externas para consultar exames em tempo real — um vaivém de olhar que interrompe o foco na cirurgia e exige memória visual apurada.
A realidade aumentada (RA), conceito desenvolvido nos anos 1990 e popularizado nas últimas décadas, muda essa lógica: tomografias e ressonâncias passam a ser projetadas diretamente no campo de visão do médico, como uma camada de informação sobre o corpo do paciente.
smart_display
Nossos vídeos em destaque
A adoção da ferramenta cresce rápido. Segundo a consultoria Mordor Intelligence, o mercado global de realidade aumentada em saúde soma US$ 1,91 bilhão em 2026 e deve chegar a US$ 6,13 bilhões até 2031, puxado pelo planejamento cirúrgico.
Apesar do sucesso, a tecnologia ainda enfrenta limitações. Sistemas de RA exigem hardware especializado, treinamento da equipe médica e aprovação regulatória. Erros de alinhamento entre a imagem virtual e a anatomia real também comprometem a precisão.
Confira a seguir como a tecnologia funciona, quais cirurgias já a utilizam, os benefícios e riscos documentados por estudos e hospitais, e o que já foi feito no Brasil.
Realidade aumentada na medicina: como funciona?
Na prática, a realidade aumentada funciona como uma espécie de “visão de raio-X”: o cirurgião passa a ver, sobre o corpo do paciente, imagens de tomografias e ressonâncias alinhadas em tempo real, o que facilita a identificação de estruturas internas durante a cirurgia.
Segundo a UC Davis Health, dos EUA, o processo começa antes do procedimento, com exames de imagem do paciente. Softwares especializados transformam essas imagens em modelos 3D, carregados em óculos com sensores de rastreamento, capazes de alinhar as imagens ao corpo em tempo real.
Dessa forma, o médico consegue manipular as imagens digitais sem tocar em nada. Durante a cirurgia, gestos com as mãos ou o rastreamento do olhar permitem ajustar, ampliar ou girar a imagem.
No artigo “Realidade aumentada vestível intraoperatória para cirurgia”, publicado na revista JAMA Surgery em julho de 2025, os autores explicam que a tecnologia se divide em duas categorias: a realidade aumentada por vídeo, usada em cirurgias laparoscópicas, e a óptica, feita por headsets que sobrepõem imagens à visão do usuário.
Diferença entre RA e RV na medicina
A principal diferença entre realidade aumentada (RA) e realidade virtual (RV) está no ambiente com o qual o médico interage. A RA apenas adiciona camadas digitais sobre o mundo real — o corpo do paciente —, enquanto a RV substitui completamente o mundo físico por um ambiente 100% digital.
Isso significa que a RA mantém o cirurgião focado no paciente e na sala de cirurgia, apenas com dados extras sobrepostos. Já a realidade virtual costuma ficar restrita a treinamentos e simulações, fora do centro cirúrgico.
Como a realidade aumentada é aplicada durante as cirurgias?
Durante as cirurgias, a RA funciona como um sistema de navegação holográfico de alta precisão. Em vez de operar às cegas ou desviar o olhar para telas externas, o médico visualiza informações digitais projetadas diretamente sobre o corpo do paciente.
Entre os principais usos documentados por hospitais e universidades, estão:
- Planejamento cirúrgico: visualização 3D da anatomia do paciente antes da primeira incisão;
- Navegação intraoperatória: sobreposição de imagens de exames em tempo real sobre o corpo do paciente;
- Localização de vasos e nervos: identificação de estruturas ocultas sob a pele, sem cortes exploratórios;
- Guia de implantes: posicionamento de parafusos e próteses com precisão milimétrica;
- Educação médica: treinamento de residentes e explicação do procedimento ao paciente antes da cirurgia.
Em testes realizados em janeiro de 2018, pesquisadores do Imperial College London usaram headsets Microsoft HoloLens para sobrepor imagens de tomografia sobre a perna de pacientes em cirurgias reconstrutivas, conseguindo enxergar ossos e vasos sanguíneos sem incisões exploratórias.
Em um teste pioneiro realizado no Stanford Medicine (EUA), em março de 2024, o cardiologista Alexander Perino usou o Apple Vision Pro durante uma ablação cardíaca para reunir, em um único visor, até oito monitores da sala enquanto inseria cateteres no paciente.
A fabricante Surglasses segue caminho parecido: seu sistema Foresee-X projeta imagens de tomografia direto sobre a coluna do paciente, guiando parafusos sem depender de raios-X repetidos.
Quais são os benefícios e os riscos da realidade aumentada em cirurgias?
Embora demonstre ganhos de precisão e segurança nos estudos clínicos, a adoção plena da RA ainda exige cautela: limitações técnicas e desafios operacionais devem ser considerados antes da expansão da tecnologia.
Benefícios:
- Maior precisão na colocação de implantes: o sistema xvision, da Augmedics, registra taxas de acerto entre 97% e 100% em parafusos de coluna, segundo uma revisão publicada em 2025 na revista Cureus Journal of Medical Science;
- Redução da exposição à radiação, por dispensar exames intraoperatórios repetidos;
- Menor tempo de preparo da sala e de navegação cirúrgica, segundo relatos de hospitais brasileiros;
- Ferramenta de ensino que permite treinar residentes sem expor pacientes reais a riscos.
Riscos e desafios:
- Custo elevado de aquisição, manutenção e atualização dos equipamentos;
- Tempo de adaptação da equipe à nova forma de operar;
- Risco de desalinhamento entre a imagem virtual projetada e a anatomia real do paciente;
- Necessidade de aprovação de cada software e sistema de navegação cirúrgica por agências regulatórias, como a FDA e a Anvisa.
Esses riscos ajudam a explicar por que o uso da tecnologia ainda avança de forma gradual. Em geral, hospitais começam por cirurgias ortopédicas, menos complexas, antes de expandir o uso para procedimentos mais delicados, como os neurológicos e cardíacos.
A realidade aumentada já chegou aos hospitais brasileiros?
)
O grande marco para a realização das primeiras cirurgias utilizando sistemas de realidade aumentada e realidade mista no Brasil ocorreu em 2024. Em maio, o Hospital Sírio-Libanês de Brasília realizou a primeira cirurgia do país com dados projetados em 3D em óculos de realidade mista para a remoção de um tumor pulmonar.
Em agosto de 2024, uma equipe liderada por médicos vinculados à Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio realizou o primeiro procedimento ortopédico com RA do país, corrigindo uma lesão de menisco no joelho de um paciente.
Em outubro de 2024, um hospital público em Feira de Santana, na Bahia, realizou a primeira neurocirurgia do Brasil com o Apple Vision Pro — um misto de RA e RV — dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).
A tecnologia também avançou em centros maiores. Em setembro de 2025, a Santa Casa de São Paulo passou a usar óculos de realidade aumentada integrados à inteligência artificial em cirurgias de coluna, crânio e ortopedia.
Pouco depois, em novembro, o Hospital São Luiz São Caetano, da Rede D’Or, utilizou o recurso para implantar uma prótese de joelho em um paciente com hemofilia — uma condição que aumenta o risco de sangramento.
Qual é o futuro da realidade aumentada nas cirurgias?
O futuro da realidade aumentada em cirurgias caminha em três frentes que já deixam de ser promessa: headsets mais leves, maior integração com a inteligência artificial e expansão de procedimentos assistidos remotamente por especialistas.
Dessas, a frente mais promissora tem sido o cruzamento com a IA. Hospitais já testam algoritmos capazes de analisar dados do paciente durante a própria operação e sinalizar riscos antes que eles evoluam para complicações — uma nova função que vai além da sobreposição de imagens sobre o campo cirúrgico.
A mesma lógica de antecipar riscos e agir à distância sustenta a cirurgia colaborativa. Com um headset de RA, um especialista já pode orientar em tempo real um procedimento realizado em outro país, sem se deslocar até o hospital onde a cirurgia acontece.
Isso ocorreu na prática em 2024, em uma cirurgia ortopédica realizada no Hospital Dona Helena, em Joinville (SC), que teve o apoio remoto de um médico na África do Sul.
No Brasil, a tendência para 2026 é que essa integração se amplie em especialidades como cardiologia, neurologia e radiologia — sempre priorizando segurança e responsabilidade clínica na adoção de novas ferramentas.
A RA em cirurgia, aliás, já saiu do campo da promessa: hospitais nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Brasil usam hoje a tecnologia para guiar implantes, localizar vasos sanguíneos e reduzir a exposição à radiação em procedimentos complexos.
Ainda assim, o alto custo dos equipamentos e o treinamento necessário ainda mantêm o recurso concentrado em centros de referência. A grande questão não é mais saber se a tecnologia funciona, mas sim quem terá acesso a ela — e quando.
A próxima revolução da medicina pode estar diante dos olhos — você toparia ser operado por um médico guiado por um headset de RA? Compartilhe sua resposta nas redes sociais.
Para acompanhar de perto como a tecnologia está transformando a medicina — e outras áreas do conhecimento —, continue ligado no TecMundo.