Lideranças indígenas do Tapajós saíram de uma reunião de mais de quatro horas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na quinta-feira, no Palácio do Planalto, com a perspectiva de que o governo recue do plano de realizar uma dragagem emergencial no rio. Na terça-feira, reportagem de André Borges, na Folha de S.Paulo, revelou que a retirada de sedimentos do Tapajós vinha sendo tratada como uma resposta preventiva aos efeitos de uma possível seca provocada pelo El Niño.
O argumento da emergência é contestado pelas lideranças indígenas, que afirmam que o plano atende principalmente à pressão do agronegócio para manter o Tapajós navegável para grandes comboios de soja e milho. Segundo os líderes indígenas, pesquisadores do GT Infra apresentaram dados indicando que a operação planejada vai além da retirada de sedimentos acumulados naturalmente. O projeto prevê a dragagem de cerca de 1,05 milhão de metros cúbicos de material, enquanto a sedimentação anual estimada nos sete pontos previstos soma aproximadamente 47 mil metros cúbicos. Além disso, quatro das áreas incluídas no projeto nunca foram dragadas, o que, segundo a análise, caracteriza um aprofundamento e alargamento do canal, e não apenas uma intervenção de manutenção.
As lideranças do Tapajós voltaram a alertar o governo para os riscos de alteração da dinâmica dos sedimentos, erosão de praias, impactos sobre peixes e áreas de reprodução, prejuízos à pesca e possível mobilização de contaminantes, como o mercúrio. Na conversa com Lula, reforçaram ainda a preocupação de que a dragagem aprofunde a transformação do Tapajós em um corredor de commodities, subordinando a pesca, a mobilidade das comunidades, o turismo, o abastecimento local e os usos culturais e espirituais do rio às necessidades dos grandes comboios de grãos.
— A dragagem ameaça os peixes, pode mexer com o mercúrio do fundo do rio e destruir os nossos lugares sagrados. Defender o Tapajós é defender a vida de todos os povos e comunidades que dependem do rio — afirma Alessandra Korap Munduruku, uma das lideranças presentes no encontro.
A reunião contou com representantes da Casa Civil, dos ministérios do Meio Ambiente, dos Povos Indígenas e dos Transportes, da Agência Nacional de Águas (ANA) e de outros órgãos federais. Segundo participantes, Casa Civil e ANA defenderam a intervenção. Já as lideranças indígenas argumentaram que o governo deve priorizar a manutenção de outras rotas de transporte e elaborar um plano para os períodos de seca voltado ao abastecimento das comunidades, à circulação de medicamentos, combustíveis e alimentos e à proteção das populações mais vulneráveis.
Durante o encontro no Planalto, as lideranças entregaram ao presidente um documento em que pedem a suspensão de dragagens sem licenciamento ambiental e sem consulta prévia às comunidades, o cancelamento da Ferrogrão e da derrocagem do Pedral do Lourenção, além da criação de um plano regional de adaptação climática que priorize as comunidades e o transporte de produtos essenciais.