Era uma vez um orientando que chegou cheio de entusiasmo para a primeira conversa sobre sua dissertação. Levava consigo um sujeito. Não um sujeito qualquer, mas o sujeito. Aquele que o fez entrar no curso, atravessar bibliografias, fazer anotações na madrugada e acreditar que ainda existia espaço para perguntas inéditas.
O orientador ouviu atentamente. Depois respondeu, com a tranquilidade de quem já viu muitas primaveras acadêmicas: “Não, esse sujeito, não. É antiquado, melhor falar de outra coisa”. E assim o sujeito morreu. Ou quase. O curioso é que quem procura um orientador já sabe que haverá cortes. Espera, inclusive, por eles. Todo pesquisador chega com um matagal de ideias. É saudável que alguém diga: “Por aqui não”, “Esse caminho está longo”, “Talvez seja melhor reduzir o escopo”. Faz parte do ofício.
O problema começa quando, em vez de aparar galhos, cortam a árvore inteira. Há uma diferença enorme entre lapidar uma ideia e decretar que ela não merece existir.
Se aquele sujeito não dialogava com o repertório do orientador, talvez a resposta pudesse ter sido outra.“Não sou a melhor pessoa para acompanhar esse trabalho. Posso indicar alguém.” Que gesto bonito seria esse. Porque reconhecer os próprios limites também é uma forma de ensinar. Mas talvez a história nem seja sobre universidades. Talvez seja sobre a quantidade de sujeitos que perdemos ao longo da vida porque alguém resolveu podá-los antes da hora. A ideia de um livro que “não vai interessar ninguém”. A exposição considerada “emocional demais”. O negócio chamado de utopia. A conversa interrompida antes de terminar. Quantas vezes confundimos experiência com autorização para decidir o que merece ou não florescer?
Há podas necessárias. Mas existe uma silenciosa, muito mais perigosa. A que nasce do medo, da preguiça intelectual. Ou da crença de que, porque nunca vimos determinada flor nascer, ela não existe.
A História mostra quantas pessoas quase foram eliminadas antes de florescer dentro ou fora da academia. Raça já foi um assunto “identitário demais”. Gênero já foi considerado tema “de nicho”. Clima era visto como exagero de ambientalistas. Saúde mental parecia falta de resiliência. Todos esses sujeitos, em algum momento, ouviram que talvez fosse melhor falar de outra coisa. Ainda bem que nem todo mundo aceitou a sugestão.
Acredito que a maior responsabilidade de quem ensina e de quem ocupa lugar de influência não seja decidir quais sujeitos podem existir e, sim, criar condições para que eles encontrem quem saiba cultivá-los. Há uma enorme diferença entre orientar e interditar.
E o mundo anda precisando muito menos de jardineiros que escolhem quais flores têm direito de nascer e muito mais daqueles que reconhecem que ainda existem jardins que eles próprios nunca aprenderam a cultivar.