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sexta-feira, julho 24, 2026

A aventura literária de José Paulo Paes – Revista Cult

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Num de seus ensaios, publicado no recém-lançado O Lugar do Outro (Editora Topbooks), o poeta José Paulo Paes se auto-denominava um poeta distrital. Ele mesmo costumava dizer que era o poeta mais importante do seu quarteirão, na rua João Carlos da Silva Borges, em Santo Amaro. Credite-se o epíteto ao seu habitual senso de humor. Em um poema de A poesia está morta mas juro que não fui eu, ele simplesmente era “poeta de ribeirãozinho/ estrada araraquarense”. Esse refinado tom humorístico estava na poesia, na prosa de ensaísta e na fala de José Paulo. Em dezembro de 1992, logo depois da publicação de Prosas seguidas de Odes mínimas, liguei ao poeta pedindo uma entrevista para o Jornal da USP, onde trabalhava. Foram algumas horas de conversa sobre sua infância em Taquaritinga, onde nasceu e foi criado, os anos de estudo e de atividade literária intensa em Curitiba, onde foi estudar química e participou da famosa revista Joaquim, de Dalton Trevisan, as amizades literárias, anos depois, em São Paulo, com Oswald de Andrade e Osman Lins – ou seja, a memória do poeta estava trabalhando a todo vapor, recuperando imagens, povoando seus sonhos e planejando escrever uma “propedêutica da poesia” que despertasse nos jovens a paixão pela literatura (projeto que, infelizmente, acabou não se concretizando). Boa parte dessa prosa – pontuada pelo tradicional fino humor – está agora aqui reproduzida, dando ênfase às perguntas que haviam ficado de fora em sua primeira publicação. E através dela pode-se perceber que o poeta distrital atravessou ruas, pontes, mares, aprendeu e traduziu várias línguas. Foi um poeta do seu tempo e um observador sempre irônico das contradições do vasto mundo.

CULT Em Prosa seguidas de Odes mínimas, o leitor nota um forte sabor memorialista e uma diferença razoável em relação aos seus livros anteriores. Há quanto tempo o sr. vem trabalhando nesses poemas e como surgiu essa vertente da memória em sua poesia?

José Paulo Paes Quanto à questão do tempo, na realidade há pelo menos dois poemas que datam de 1947 (“Escolha de túmulo” e “Canção do adolescente”) e que ficaram na minha gaveta de guardados porque eu não achei lugar para eles em nenhum dos livros que publiquei. Eles destoavam das tônicas dominantes destes livros. Já a maioria dos poemas foi escrita nos últimos cinco anos, depois que eu tive um problema de saúde muito grave, tive uma perna amputada. E eles de certo modo estão ligados a esta peripécia, tanto que um dos poemas é uma ode a minha perna esquerda. Essa foi uma fase difícil da minha vida, com certo risco de vida, e, nessas ocasiões, a gente repensa os valores. Eu tive de repensá-los e uma das coisas que me marcaram, nessa época, foi a experiência onírica, sonhos insistentes que me perseguiam e acabei descobrindo que tinham um significado mais profundo, pois estavam ligados a essa minha experiência traumática e a ligavam a certos acontecimentos da infância e da juventude. O clima das prosas é um clima rememorativo, mas não chega a ser confessional, enquanto que nas odes mínimas são poemas mais objetivos, mais fenomenológicos ou mais descritivos.

CULT Nesse livro, o sr. faz um mergulho no seu passado, lembrando de familiares e de personagens de sua infância em Taquaritinga. O sr. poderia falar um pouco sobre esses personagens?

J.P.P. Esses personagens estão ligados à casa onde nasci, onde passei a primeira infância e para onde eu voltei, durante as férias escolares, anos a fio, enquanto os meus pais estavam vivos. Depois, eles morreram. Primeiro morreu meu avô, depois minha avó, depois meus pais, depois meus tios, de modo que esta casa, que era casa familiar, onde a família vivia uma espécie de congregação ao modo patriarcal, foi ficando vazia e acabou sendo fechada. E ficou abandonada durante anos. Então, nesses meus sonhos vinha insistentemente a idéia dessa casa abandonada. Daí nasceu o poema “A casa”, em que tento recuperar a atmosfera da casa, do ponto de vista não mais da criança, mas do homem de 65 anos que vê uma casa fechada e assombrada. E assim nasceram os outros poemas, o poema ao meu pai, a minha mãe, ao meu avô J.V., a minha avó Dona Zizinha, outro ao velho empregado da livraria e, também, claro, aos loucos da cidade.

CULT No poema “Noturno” o sr. fala sobre a expansão do mundo através da leitura. Qual era seu contato com o “vasto mundo” nessa época?

J.P.P. Nesse poema o que se exprime é minha condição de rapaz de interior, de uma cidade pequena cujo contato com o mundo era através do trem. O apito do trem me dava um sentimento de distância e, ao mesmo tempo, de exílio. Quer dizer, eu estava exilado do grande mundo. Estava nos confins do grande mundo. Cada vez que o trem apitava, meu quarto ficava menor ainda e o mundo ficava cada vez maior. O trem partia e me deixava para trás. Na medida que o mundo cresce na imaginação, o lugar no qual você está encerrado, se fecha. E aí você só pode abri-lo através da imaginação. E principalmente através dos anseios juvenis, o anseio do mundo dos livros, da literatura, do mundo físico, do desconhecido, do mundo geográfico, de outros países, das outras terras remotas desde Ufir até aquela Samarcanda, cuja sonoridade sempre me impressionou muito. E finalmente, claro, através da experiência erótica, da experiência amorosa.

CULT De Taquaritinga o sr. foi estudar em Curitiba. Que ambiente literário propício o sr. encontrou por lá?

J.P.P. Minha ida para Curitiba teve motivo puramente pragmático. Eu tinha terminado o curso ginasial e não queria seguir Letras, porque naquele tempo Letras só abria caminho para a profissão de professor e eu sempre tive horror da escola. Eu sempre gostei muito de aprender, mas fora da escola. Então, eu queria arranjar uma profissão que pudesse exercer tão logo quanto possível e me libertasse da tutela econômica dos meus pais. Escolhi um curso de química, que era um curso rápido, de quatro anos, que me daria uma qualificação profissional. Como eu não consegui ser aprovado no Mackenzie, aqui em São Paulo, fui para Curitiba e consegui entrar no Instituto de Química do Paraná, onde estudei por quatro anos. Saí com o diploma de químico e a cabeça cheia de sonhos, não químicos, mas literários e políticos. O meu ritual de batismo literário foi em Curitiba. Até então, a literatura para mim era uma espécie de vício solitário. Mas lá encontrei um grupo de rapazes da minha idade, com sonhos literários e me liguei a eles. Fizemos suplementos, revista, paticipamos de congresso de escritores e publicamos nosso primeiros livros. Desta maneira, eu passei a ver a literatura como uma espécie de empresa associativa, comunal.

CULT Quem fazia parte dessa “empresa associativa”?

J.P.P. Havia vários amigos de que eu me lembro, inclusive havia um belo poeta, o primeiro e verdadeiro poeta que eu conheci, Glauco de Sá Brito, que era um desses poetas espontâneos, já nasceu com o gênio da coisa. Ele não chegou, infelizmente, a realizar uma obra muito sólida, mas me impressionou muito pela espontaneidade com que escrevia. Aquilo que para mim custava um trabalhado danado, o Glauco fazia com a maior facilidade possível. Havia também Armando Ribeiro Pinto, que se interessava muito por cinema, Samuel Guimarães da Costa e, depois, a geração do Dalton Trevisan, ao lado de pintores, como o pintor Carlos Scliar, que ficou nosso amigo. Era um grupo que se interessava por pintura, por literatura, por arte em geral. Curitiba, nessa época, por volta de 45, 46, era muito provinciana e essencialmente acadêmica. A esta altura, me parece que havia em Curitiba quatro ou cinco academias de letras. Tanto é que a gente brincava dizendo que, por metro quadrado, é a cidade onde há mais imortais no país todo. Havia, por isso, uma literatura muito acadêmica. Nós representávamos, naquela época, a modernidade, tardia, porque a modernidade brasileira vem de 22 e nós estavamos naquela altura no comecinho do pós-guerra. De qualquer modo, ainda se lutava muito por lá. O Dalton, por exemplo, aparece com o Joaquim, que foi uma revista irreverente e que se ergueu principalmente contra os tabus acadêmicos da própria Curitiba. O Dalton até hoje é um crítico feroz de Curitiba, dentro da qual ele descobre dimensões secretas.

CULT Como o sr. vê a experiência da revista Joaquim?

J.P.P. Ela era literária, se bem que os nossos interesses fossem vastos. A gente se interessava por pintura, cinema, escultura, ficção, poesia, enfim, tudo que dizia respeito a arte nos interessava. Ela tinha circulação nacional. A Joaquim, dessa geração de 47, que eu prefiro chamar de imediato pós-guerra, me parece que foi a revista mais bem lograda, mais conhecida e mais representativa por seu caráter combativo. As academias tinham horror a ela, não sabiam o que aquilo significava, achavam que era feito por um bando de loucos, o que nos enchia de orgulho. O Paraná teve a sorte e a má-sorte de ter sido um dos focos do Simbolismo. Teve poetas curiosos, como Emiliano Perneta e Dario Veloso. Mas o máximo que àquela altura a intelectualidade local tinha chegado era o Simbolismo. Eles achavam que depois do Simbolismo o mundo acabava. E nós não. Achavamos que o Simbolismo tinha ficado definitivamente para trás, que havia muito mais coisa entre o céu e a terra do que os Simbolistas imaginavam. Mas era uma época eminentemente política e o nosso anseio de renovação no plano artístico também estava ligado ao plano político. Tínhamos ainda o mito da utopia socialista, de uma mundo só, que depois foi sendo progressivamente desmontado, primeiro pela Guerra Fria, depois pela derrubada do mito stalinista e pela crise toda do marxismo que chegou hoje ao auge.

CULT O sr. falou sobre a participação do Congresso Brasileiro de Escritores em 1947, em Belo Horizonte. O que significou esse Congresso para o sr. e para a sua geração?

J.P.P. O Congresso reuniu escritores do Brasil todo, tinha gente do Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul, Nordeste. Foi o primeiro congresso que a nova geração apareceu em bloco. Até então, a gente só tinha tido contato por cartas, troca de livros e revistas. Esse congresso representou, inclusive, a nossa tomada de consciência como geração. Nós sentíamos que tínhamos uma série de idéias e sonhos comuns e que de certo modo não eram os mesmos da geração que nos antecedeu. Havia uma série de diferenças, principalmente a preocupação política, que foi muito marcante entre nós, o que não era tanto na geração de 30. Na poesia, com exceção de Drummond, não havia nenhum grande poeta que estivesse politicamente engajado. Nós também tínhamos uma outra visão da poesia, inclusive com um certo interesse pela técnica poética mais tradicional. E, ao mesmo tempo, vínhamos com novas influências. Até então as influências dominantes da literatura brasileira tinham sido francesas e a nossa geração foi a geração que começou a estudar inglês sistematicamente e a penetrar o mundo da literatura de língua inglesa. Foi a época em que conhecemos T.S.Eliot, Auden, Cristopher Caudwell, um pensador que me influneciou bastante na juventude.

CULT Normalmente, o sr. situa a sua geração como a do Pós-Guerra ou geração de 47. Quais afinidades o sr. tinha com essa geração?

J.P.P. Acho que essa coisa de geração é muito relativa. São rótulos de que os historiadores literários têm necessidade para fazer as suas ordenações, às vezes um pouco arbitrárias. De qualquer modo, é uma simples situação cronológica, mas não tem nenhum valor judicativo. A geração de 47 foi marcada por algumas preocupações que estão ausentes da minha poesia publicada. De tal modo que não me sinto assim muito afinado com uma certa ala dessa geração. É uma geração um pouco díspar, porque mistura João Cabral com Péricles Eugênio da Silva Ramos, José Paulo Moreira da Fonseca, Marcos Konder Reis. É um saco de gatos. A minha preocupação sempre foi a de achar minha própria voz, e ela é minha e não de uma geração.

CULT Quando o sr. publicou seu primeiro livro, O aluno, Sérgio Milliet escreveu um artigo sobre o seu trabalho e Drummond enviou-lhe uma carta. Como eles tomaram conhecimento de sua obra e qual foi a recepção?

J.P.P. Quem realmente fez o livro foi o Carlos Scliar. Quando ele veio a Curitiba, nós mostramos a nossa produção, ele se interessou por ela e achou que nós devíamos publicá-la em livro. Então, ele arranjou um editor, fez todo o projeto gráfico, acompanhou toda a feitura gráfica do livro. Saíram três livros: O marinheiro, do Glauco de Sá Brito, Os gatos, de Armando Ribeiro Pinto, e o meu. Dois livros de poesia e um de contos. E as edições eram muito simples, mas muito bem cuidadas do ponto de vista gráfico. Eu tinha naquela época – isso foi em 47 – 21 anos. Eu mandei o livro para o Sérgio Milliet e ele escreveu um artigo muito favorável, muito elogioso que me fez andar nas nuvens durante uma semana. Então, eu senti pela primeira vez em mim o borbulhar do gênio, para descobrir que aquilo não era nada. Borbulhar de coisa nenhuma. E ao mesmo tempo recebi uma carta do Drummond, muito simpática, mas muito severa fazendo restrições. Essa carta me irritou muito na época, porque como eu estava me achando um gênio, aqueles reparos críticos me apearam das nuvens da auto-incensamento, mas para o chão firme da autocrítica, que é o chão por onde todo poeta deve caminhar sistematicamente.

CULT Quais foram esses reparos apontados por Drummond?

J.P.P. Ele achava que eu tinha um certo domínio do verso livre, um bom sentido de ritmo, mas eu estava me procurando através dos outros, enquanto eu deveria me encontrar dentro de mim mesmo. Então, ele me recomendava inclusive que eu procurasse ler os poetas estrangeiros, em outras línguas, porque eram mais universais e havia o esforço, se não de imitá-los ou aclimatá-los a nossa língua, mas de traduzi-los. Havia, portanto, uma refração e um quociente pessoal que nunca é dado pela influência dentro do próprio idioma. Veja hoje: os epígonos do João Cabral são facilmente reconhecíveis; aliás, existe um certo maneirismo cabralino que esses epígonos pegam com muita facilidade. E a vantagem do Drummond é que ele era um poeta bem mais aberto, então o epigonismo drummondiano é menos marcado que o epigonismo cabralino. Mas de qualquer modo é um epigonismo. E toda a minha luta desde então, graças a essa carta do Drummond, foi de tentar puxar minha voz própria, uma vozinha que fosse pequenininha, que fosse fraquinha, mas que fosse minha, ou como dizia o Oswald, “mau mas meu”. Toda a minha luta foi por aí. Graças à carta do Drummond, eu deixei de lado uma sonetística meio parnasianóide que faziam então Ledo Ivo e Paulo Mendes Campos. E eu estava entrando nessa. Foi aí que me voltei para uma poesia mais crítica e mais satírica das Novas cartas chilenas, que foi o primeiro resultado concreto da sacudida que recebi do Drummond. A partir das Novas cartas chilenas, a minha poesia fica impessoal, ela se debruça sobre o mundo, principalmente para vê-lo sob lentes críticas, ideologicamente informadas. Eu me debruço sobre a sociedade de consumo para denunicar a pequenez e as misérias dela.

CULT Essa é uma preocupação de sua poesia, que, como diz Alfredo Bosi, no ensaio “O livro do alquimista”, é uma poesia que vê a máquina do mundo sob suspeita. O sr. poderia falar um pouco sobre essa preocupação?

J.P.P. Minha preocupação social começou em termos partidários, ligados a um problema ideológico, politicamente definido. Depois, a própria marcha da história foi desmentindo várias dessas ilusões, mas jamais apagou em mim o sentido da utopia social. Vou ser um utopista social até a morte. Acredito que é possível uma sociedade mais justa e mais fraterna. Não só é possível, como é indispensável que ela venha. E nós temos que lutar por ela seja de que forma for. Agora, cada vez mais eu estou descrente dos esquemas partidários e ideológicos, porque eu sei que eles são redutores. O que é fundamental nesse sentido utópico é o sentido de solidariedade humana e ânsia de igualdade humana. Estes são os sentimentos fundametais e é sobre esses sentimentos de base que se constróem ideologias e as ideologias de certa forma ressecam os sentimentos. Este sentimento de perda do calor das origens está em vários poemas meus. Em Prosas seguidas de Odes mínimas, há “Sobre o fim da história” e “Mundo novo”, que são poemas que têm a ver com essa questão do ressecamento do sentimento humanitário pelas vendas, pela estreiteza ideológica. Isso pervaga de certo modo minha obra toda engajada ou interessada. Ela é engajada, sim, é ideologicamente engajada no sentido de refletir uma visão de mundo, mas essa visão do mundo não é partidária, nem evangélica. Eu não quero convencer ninguém. Cada um tem direito de errar por conta própria, sem que ninguém lhe transmita os próprios erros.

CULT Na sua poesia, a ironia é um traço marcante. Alfredo Bosi fala, no mesmo ensaio, em um observador irônico…

J.P.P. Essa ironia é clara. Eu aprendi primeiro com Drummond, depois com Oswald de Andrade, que eu conheci em São Paulo. Com ele, tive uma relação muito curiosa, porque o Oswald a esta altura tinha rompido com o Partido Comunista e eu ainda continuava meio linha justa, de modo que nós tínhamos grandes discussões sobre questões políticas e de certo modo sobre questões de literatura, já que ele era um crítico da chamada geração de 47. Ele achava que era uma geração reacionária, que estava voltando ao verso metrificado, rimado. Ele achava que tudo isso era totalmente anacrônico. Ao mesmo tempo, essas discussões para mim foram vitais porque também foram uma outra sacudida. Eu não conhecia a poesia do Oswald, pois naquela época era inacessível, a gente achava um ou outro poema dele nas antologias. E quando eu vim a São Paulo, ele me presenteou com um dos exemplares daquele edição Poesia Reunida/O. Andrade, feita pelas Edições Gaveta. Foi aí que eu tomei contato com a poesia dele e fiquei fascinado. E logo depois eu li numa primeira edição a História do Brasil, do Murilo Mendes. E naquela época eu andava muito metido com história do Brasil, estava lendo Caio Prado, Sérgio Buarque de Hollanda. E aquilo tudo se mexeu na minha cabeça e saiu esse poema que se chama Novas cartas chilenas, que é uma tentativa de revisão irônica da história do Brasil, traindo então a influência de Murilo e Oswald, mas já consciente dela e tentando superá-la em busca de uma voz pessoal que, modéstia a parte, eu acredito ter começado a encontrar a partir desse livro.

CULT Em São Paulo, nos anos 60, o sr. também se aproximou da poesia concreta. Como foi esse aproximação e que subsídios trouxe para a sua linguagem poética?

J.P.P. Eu tive uma aproximação do grupo de poesia concreta através do Cassiano Ricardo, que foi publicado pela editora onde eu ia então trabalhar, a Cultrix. E ele me aproximou do grupo. Depois, o grupo acabou brigando com o Cassiano. Cheguei a colaborar na revista Invenção e partilhei algumas das idéias, mas nem todas. A minha formação era diferente, eu não tinha raízes nem mallarmaicas, nem joyceanas. De modo que minha aproximação se deu sob o signo do humor e do laconismo da economia verbal. O que me impressionou muito nos experimentos concretos foi essa possibilidade de utilizar certos recursos de linguagem para aguçar e tornar mais acurada aquela ponta satírica que já havia na minha poesia. Durante um certo tempo, nós caminhamos juntos, mas depois a minha poesia foi despontando para outro tipo de coisa e a novidade da experiência concreta foi se diluindo.

CULT Como o sr. se interessou pela poesia grega moderna?

J.P.P. Eu sempre tive vontade de conhecer a Grécia, mas nunca tive dinheiro para isso. Eu só fui ter dinheiro quando eu já estava na idade madura, aí eu consegui fazer um mínimo de economia para fazer a minha primeira viagem à Grécia. Tanto que costumo dizer que o turismo é uma espécie de serviço militar obrigatório da maturidade. Então, como era a primeira vez que iria à Grécia, achei que seria uma falta de respeito não saber dizer “bom dia”, “obrigado”, “até logo”, na língua dos nativos. Eu pedi ao Wilson Martins, que então lecionava na Universidade de Nova York, que me comprasse um curso de língua-fone de grego moderno. Durante oito meses, todos os dias, duas ou três horas por dia, eu ficava ouvindo aquilo e repetindo as lições. Com isso, adquiri os rudimentos do grego moderno, que é aliás uma língua fascinante. Essa experiência da Grécia me fascinou. Pela primeira vez, tive noção exata do ser grego. Eu acho que os gregos de hoje são os continuadores dos gregos antigos. Aquela idéia de uma Grécia aviltada, empobrecida, é uma besteira. O espírito grego continua vivo. As coisas mudaram, como tudo mudou, a história é implacável, mas esse espírito você sente convivendo com os gregos de hoje e lendo Homero, o teatro grego. São fundamentalmente os mesmos gregos. E a própria língua é o penhor dessa continuidade histórica e intelectual. É a mesma língua – claro, modificada através dos séculos, mas fundamentalmente é a mesma língua, apesar de bem mais simplificada. Tanto que, primeiro, aprendi o grego moderno e agora estou aprendendo o grego antigo. Preferi o caminho que me parece o caminho correto, do vivo para o morto, do presente para o passado, para acabar com essa mania antiquária de achar que só o que ficou no passado é que interessa quando o importante é você descobrir os nexos de contuidade que tornam a cultura um organismo vivo. É por isso que me voltei para a literatura moderna da Grécia. Eu acho que a poesia que se faz hoje na Grécia está entre as melhores do mundo.

CULT Agora, voltando ao poeta José Paulo Paes, como é seu processo de criação poética?

J.P.P. Não há um processo de trabalho. O poema nasce por conta própria, você é apenas a parteira. Não é mais do que isso. Agora, é claro, no processo de inseminação você pode ser inseminado por uma frase que você ouve, por uma leitura que você faz, por um fato de sua vida, por um sonho. Há vários elementos incitadores para a origem do poema. Às vezes por exemplo há um torneio de linguagem que você guarda, “um dia vou escrever um poema explorando isso”. Eu me lembro de um poema meu. Existe aquela expressão “homem público”, que é o canastrão, cidadão respeitável, pai da pátria. Ao mesmo tempo, e isso é curioso, quando você fala em “mulher pública”, todo o campo de conotação é totalmente diferente. Você passa da esfera da respeitabilidade, da hipocrisia respeitável, para a esfera da degradação e do desrespeito. Toda a ética da sociedade machista está nessa simples oposição. Tanto que eu pensei em escrever um poema explorando esse tipo de coisa, quer dizer, o mesmo adjetivo aplicado a dois substativos diferentes gerando dois campos contraditórios de significado. Comecei e percebi que iria diluir a idéia inicial. E o poema ficou só nesses dois versos e se chama “Lembrete cívico”.

CULT É comum, atualmente, as pessoas torcerem o nariz para a inspiração, com um certo preconceito. No seu trabalho tem inspiração?

J.P.P. Claro. Todo meu sentimento religioso se concentra na crença da inspiração. Não como uma potência divina, mas como uma dimensão interior sua que só aflora em momentos privilegiados. É como o sonho significativo. Você tem uma quantidade muito grande de sonhos, mas há certos sonhos que o perseguem porque neles está se exprimindo alguma coisa de fundamental para a sua vida. E a inspiração é isso, uma virtualidade que você traz dentro de você que, numa conjuntura favorável, estimulada por circunstâncias propícias, aflora. De modo que eu acredito piamente na inspiração. Não que o poema venha pronto, vem apenas o germe, depois você tem que trabalhar, você tem que ter artesanato, tem que ter um cabedal de leituras, um arquivo de modelos para, à luz disso tudo, ir tentando, não imitá-los, mas socializar aquele seu achado. Porque a poesia é uma processo de socialização, você tornou o dentro em algo fora e público. Mas às vezes a inspiração pode ser falsa. O sujeito pode simplesmente achar que é inspiração o pior dos lugares comuns. Você precisa de toda uma experiência literária para poder separar o joio do trigo, para saber o que é simplesmente mero eco de leitura e aquilo que possa ter algo de original. Essa é uma das maiores dificuldades, você saber descobrir aquilo que é seu.

CULT Como sr. vê a poesia brasileira de hoje? Têm saído vários livros de poetas novos.

J.P.P. Está se publicando muito. Bom, por um lado; e mau por outro. Mau porque está se publicando sem senso crítico. O pior no Brasil é a falta de publicações periódicas literárias, suplementos e revistas. É de uma pobreza lastimável. A revista e o suplemento seriam o lugar natural para o sujeito começar a publicar. Agora, o que acontece? O jovem não tem onde publicar, então ele pega, junta num volumezinho, ele próprio financia a edição e publica. Porém, o livro é uma coisa definitiva. O periódico, como a própria palavra diz, é uma coisa circunstancial, ligada a um momento. Então, o que está acontecendo é que uma pré-poesia está sendo publicada como poesia, quando seria bom que houvesse a possibilidade de os jovens estarem publicando em revistas e suplementos. Acho que o escritor é por natureza e por definição um livre atirador. E a melhor forma é ele trabalhar na área da guerrilha. E nessa guerrilha a arma fundamental é a publicação de revista e suplemento. O que me impressiona hoje é a falta disso. O sujeito está sozinho. Ele publica o livrinho dele e não tem quem leia, nem que se interesse ou critique. Tudo isso me dá a impressão de indigência de época e de clima. A minha geração era iconoclasta como toda geração que se preze, mas é uma inconoclastia que sabia o que quebrar e nós tínhamos os nossos sagrados. Eu me lembro da primeira vez que conversei com Graciliano Ramos, para mim foi uma experiência espantosa ter passado a tarde inteira num café conversando com ele. Ele se dignou a perder uma tarde inteirinha com um rapazola que vinha lá da província. Ou o [Otto Maria] Carpeaux, que perdeu uma noite comigo. Ele sempre trabalhava à noite. Lembro que cheguei no Rio e liguei a ele, eram 9h30 da noite. “Estou te telefonando para te dar um abraço”. E ele disse: “Venha já para cá, hoje eu quero sacrificar minha noite de trabalho para conversar com você”. E fui lá para o apartamento dele e saí às 3 horas da manhã. Eu não era nada, era um rapazola que tinha chegado de Curitiba, com uma brochurazinha de poemas. Isto tudo é muito importante, você ter respeito e convivência com os mais velhos. Como eles têm mais experiência literária, já passaram por todas as peripécias que uma carreira literária envolve, estão muito mais em situação, não digo de orientálo, mas de pelo menos lhe dar uma força. Para isso, é preciso que os jovens tenham o mínimo de interesse, conhecimento e, mais, um mínimo de ardor e de paixão pela literatura.

CULT O sr. acha que é possível fazer com que o jovem de hoje se interesse mais por poesia?

J.P.P. Estou mesmo pensando em escrever um livro de como fazer para que o jovem goste de poesia, uma espécie de propedêutica da poesia, no melhor sentido, no sentido não sistemático, não escolar, mas no sentido de uma espécie de yoga poética, para que o sujeito se sinta motivado a ler poesia e curtir poesia. É possível despertar quem tem algum gosto pela coisa através de um elenco, por exemplo, de como a linguagem da poesia funciona, qual o caminho para entender certas coisas aparentemente inexplicáveis e que entretanto são verdadeiros ovos de Colombo. Minha própria experiência de leitor ajuda. Eu tive um “estalo de Vieira” quando eu passei de Augusto dos Anjos para Bandeira e Drummond. De repente, numa noite, me veio uma iluminação e eu passei a entender aquele negócio de verso livre, daquela linguagem do cotidiano em contraposição àquela linguagem enfeitada que eu imaginei que fosse a linguagem preferencial da poesia. E aí todo um novo mundo se descortinou nos meus olhos. E eu quero saber se é possível, através de uma certa seleção de textos, provocar esse efeito num eventual leitor, inclusive ajudando-o a ver isso, de como a poesia pode estar numa notícia de jornal, num anúncio. Eu me lembro que nessa época, quando descobri o Bandeira, vi numa revista um anúncio de um batom que dizia assim: de lábio em lábio, dou a volta ao mundo. Pronto, pensei, é só você colocar Don Juan, no título, e você tem um epigrama prontinho. De modo que, tendo os olhos e a sensibilidade em estado de alerta, você pode captar o poético a todo momento.

Heitor Ferraz é jornalista e poeta, autor de Resumo do dia (Ateliê Editorial) e A mesma noite (Sete Letras)



[Fonte Original]

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