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sexta-feira, julho 24, 2026

Se guerra no Irã se prolongar, América Latina pode viver nova crise de dívida, diz Niall Ferguson

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O mundo testemunha uma terceira guerra do Golfo e ninguém sabe quanto tempo esse conflito vai durar, disse o historiador Niall Ferguson, ao participar do painel de encerramento do primeiro dia da Expert XP. Com o estreito de Ormuz mais uma vez bloqueado, o petróleo volta para a casa dos US$ 100, com impactos para a economia global. Ele chamou a atenção para o risco de isso se converter numa nova crise de dívida na América Latina caso se prolongue demais.

“Não são só o mercado de fertilizantes ou as companhias petrolíferas da Ásia, tudo é afetado, o Brasil, o mercado de ações, títulos de dívida do mundo inteiro”, afirmou. “O Brasil já tem uma das taxas de juros reais mais altas do mundo e está recebendo um choque adicional devido à extensão da guerra e do impacto da inflação global. Pergunto se a gente não está no caminho para uma próxima crise de dívida na América Latina.”

Quando invadiu o Irã junto com Israel, o governo do presidente americano Donald Trump queria uma guerra curta, achava que faria como na Venezuela, retirando o seu líder do poder, mas a investida, num contexto geopolítico totalmente diferente, deu muito errado, disse Ferguson.

“Conseguiram substituir uma teocracia zumbi por uma ditadura militar controlada pelo IRGC [a guarda revolucionária islâmica], foi uma mudança de regime com o time errado”, prosseguiu. Ele avaliou que Trump estava desprevenido em duas coisas: nos ataques com mísseis e drones para controlar o estreito de Ormuz e na retaliação que veio do Irã, não a Israel ou aos EUA, mas aos países vizinhos do golfo dos Emirados Árabes Unidos. “Foi brilhante tecnicamente e estrategicamente, deixando todos os Estados vulneráveis a ataques aéreos.” Ferguson disse evitar comparações com outros períodos de tensões geopolíticas, porque o desenrolar em geral é imprevisível.

Ele vê como um problema mais perigoso um eventual fechamento do estreito de Taiwan, de onde fluem 90% dos semicondutores mais avançados da fabricante TSMC, maior fornecedora de chips para a Nvidia. “Qualquer interrupção do comércio traria grandes consequências para o mundo todo do dia para noite, e acabaria com o ‘boom’ na bolsa americana”, alertou. “Xi Jinping quer controlar Taiwan da mesma forma que queria controlar Hong Kong, e ele hoje controla Hong Kong.”

Ele não acha que o governo de Pequim vá invadir ou fazer um bloqueio, mas que alimenta o desejo de controle sem soltar um único tiro. “Imagine você acordar um dia e ler no jornal, ouvir no rádio ou na TV a notícia de que barcos da costa chinesa têm o controle sobre o comércio, as importações e exportações de Taiwan? Seria a assertividade da soberania chinesa, é o tipo de situação fácil de imaginar e que colocaria os Estados Unidos numa situação muito complicada.”

Ele lembrou que o ataque com mísseis de precisão dos EUA no Irã no fim de semana deixou menos arsenal disponível para deter a China. “Se a avaliação é que os EUA têm a melhor arma cibernética, se eu sou Xi e controlar Taiwan, essa ameaça some.”

Apesar das tensões geopolíticas e dos riscos de os conflitos trazerem consequências econômicas para a América Latina, o historiador lembrou que a região está muito longe das zonas de guerra. “Eu preferiria estar em São Paulo do que em Kiev ou Dubai”, ironizou.

Enquanto a disputa de poder entre Estados Unidos e China for por meio do que ele chama de uma segunda guerra fria, em que se consegue evitar o campo de batalha e manter boas relações com as superpotências, pode ser bom para a América Latina. “Pensem grande, pensem como se fossem a Suíça, aproveitem o que têm: localização, localização, localização.”

O historiador Niall Ferguson (à direita) em painel na Expert XP — Foto: Leo Orestes/G.Lab

[Fonte Original]

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