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sexta-feira, julho 24, 2026

O Plano de Hong Kong para Atrair Grandes Fortunas

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Na próxima semana, Hong Kong dará mais um passo em seu plano para atrair gestores de recursos, fundos alternativos e grandes fortunas. Na terça-feira (28) Uma comissão do Conselho Legislativo voltará a discutir o projeto que amplia os incentivos tributários da cidade e pode reduzir a zero os impostos cobrados sobre taxas de performance e carried interest, parcela do lucro de um fundo que é destinada aos gestores quando os investimentos superam determinadas metas de retorno.

A proposta foi publicada pelo governo em 12 de junho e passou pela primeira leitura no Legislativo no dia 24 daquele mês. O texto altera os regimes tributários destinados a fundos privados, estruturas de investimento de famílias e à remuneração recebida por gestores quando os investimentos entregam resultados aos cotistas.

Pelas regras propostas, taxas de performance e carried interest que cumpram as exigências legais poderão ter uma alíquota efetiva de 0%. A isenção alcançará tanto o imposto sobre o lucro recebido pelas gestoras quanto o imposto sobre salários cobrado dos profissionais que participam desses ganhos.

A medida faz parte de uma ofensiva para ampliar a presença de Hong Kong na indústria global de gestão de recursos. O governo afirma que pretende atrair mais fundos e family offices, as estruturas criadas para administrar o patrimônio de famílias de alta renda.

Reforma tenta recuperar negócios que migraram para Singapura

Um relatório da KPMG publicado na quarta-feira (22) classifica a mudança como o desenvolvimento tributário mais importante para a indústria local de fundos em uma geração.

Segundo a consultoria, parte dos negócios de investimentos alternativos deixou Hong Kong nos últimos cinco anos e migrou para Singapura. O principal fator não teria sido apenas a diferença entre as alíquotas, mas a maior previsibilidade oferecida pelo regime tributário de Singapura.

As regras de Hong Kong deixavam dúvidas sobre o tratamento de estratégias como private equity, crédito privado, infraestrutura, ativos reais e hedge funds. Na avaliação da KPMG, essa incerteza pesava na decisão das gestoras sobre onde instalar equipes e administrar os investimentos.

O novo modelo amplia o conceito de fundo para incluir fundos de pensão, fundos patrimoniais, carteiras administradas separadamente e estruturas com um único investidor. Também reconhece como elegíveis investimentos em crédito, dívida, ativos digitais, commodities e imóveis mantidos fora de Hong Kong.

Outra mudança permite que veículos usados para deter participações societárias, dívidas e outros ativos sejam administrados na cidade sem perder automaticamente o benefício fiscal. O projeto elimina ainda a necessidade de certificação dos fundos pela Autoridade Monetária de Hong Kong.

Para Darren Bowdern, responsável pela área de investimentos alternativos da KPMG China em Hong Kong, a combinação entre a alíquota zero e a aplicação retroativa das regras, caso de fato seja aprovada, deve despertar interesse imediato de gestoras internacionais dispostas a formar equipes permanentes na cidade.

Benefício não vale para salários e bônus convencionais

A isenção ficará restrita às remunerações diretamente vinculadas ao desempenho dos fundos. Salários fixos, pagamentos garantidos e bônus discricionários continuarão sujeitos à tributação.

Para receber o benefício, a gestora terá de demonstrar que o direito à taxa de performance está previsto nos documentos do fundo. Também será necessário comprovar que os profissionais beneficiados trabalham efetivamente na gestão dos investimentos.

Segundo a Reuters, a remuneração de profissionais do mercado financeiro pode ser tributada em até 17% em Hong Kong. A proposta prevê efeito retroativo ao ano fiscal iniciado em abril de 2025. Na avaliação da KPMG, essa possibilidade representa uma vantagem que não está disponível atualmente em outros lugares.

Hong Kong já administra US$ 5,42 trilhões

A reforma chega em um momento de entrada recorde de recursos. Os ativos administrados pela indústria de gestão de patrimônio de Hong Kong cresceram 20% em 2025 e alcançaram 42,2 trilhões de dólares de Hong Kong, equivalentes a US$ 5,42 trilhões.

O volume superou o recorde anterior, registrado em 2021. A entrada líquida de recursos aumentou 193%, para 2,06 trilhões de dólares de Hong Kong, cerca de US$ 265 bilhões. Foi o terceiro ano consecutivo de crescimento, segundo a Comissão de Valores Mobiliários e Futuros de Hong Kong.

A presença estrangeira continua relevante. Investidores de fora de Hong Kong responderam por 63% dos recursos administrados. Quando também se exclui a China continental, a participação internacional chega a 54%.

Do lado das aplicações, 56% dos ativos foram investidos fora de Hong Kong e da China continental. Para a KPMG, os números mostram que a cidade não funciona apenas como uma porta de entrada para o mercado chinês, mas como um centro internacional de alocação de capital.

A composição das carteiras também mudou. A parcela aplicada em ativos diferentes de ações aumentou sete pontos percentuais em cinco anos e chegou a 58%. O avanço reforça o espaço para estratégias de renda fixa, crédito e investimentos alternativos.

Volta dos IPOs aumenta a liquidez

A estratégia tributária coincide com a recuperação do mercado de capitais. Hong Kong retomou em 2025 a liderança mundial em captação por ofertas públicas iniciais de ações, depois de ter ficado fora dos cinco maiores mercados em 2023.

No primeiro semestre de 2026, 85 empresas abriram o capital e levantaram 210,5 bilhões de dólares de Hong Kong. A KPMG projeta mais de 180 IPOs no ano, com uma captação próxima de 350 bilhões de dólares de Hong Kong, cerca de US$ 45 bilhões.

A fila inclui 439 pedidos públicos de abertura de capital, o maior número da série apresentada pela consultoria. Entre os IPOs que movimentaram pelo menos US$ 100 milhões no primeiro trimestre, 74% contaram com investidores internacionais entre os acionistas de referência. Em 2024, essa proporção era de 47%.

O giro médio diário da bolsa atingiu 283 bilhões de dólares de Hong Kong no primeiro semestre. O resultado representa crescimento de 18% em um ano e mais que o dobro do volume registrado em 2024.

Essa recuperação importa para os fundos porque amplia as possibilidades de saída de investimentos. Gestoras de private equity conseguem devolver recursos aos cotistas quando suas empresas investidas abrem o capital ou são vendidas. Um mercado de IPOs mais líquido também melhora as condições para levantar novos fundos.

O relatório, porém, evita tratar a recuperação como uniforme. Os investimentos de private equity na China permaneceram fracos no primeiro trimestre, somando US$ 1,6 bilhão em 21 negócios. Em toda a região Ásia-Pacífico, foram investidos US$ 26 bilhões em 255 transações.

ETFs e ativos digitais entram na disputa

A KPMG também identifica os ETFs como uma frente de crescimento. Esses produtos, incluindo versões alavancadas e inversas, já respondem por aproximadamente 17% do giro diário do mercado acionário de Hong Kong.

A negociação de ETFs cresceu cerca de 27% no primeiro semestre. Ao fim de 2025, a cidade contava com 229 ETFs e produtos alavancados ou inversos autorizados, cuja capitalização avançou 34%.

O mercado começa a ir além dos fundos passivos ligados a índices. A oferta passou a incluir estratégias ativas, geração de renda, temas específicos, operações táticas e ativos virtuais. O regulador também abriu caminho para ETFs que invistam em private equity e crédito privado.

Na área de tokenização, Hong Kong já oferece 13 produtos regulados com ativos combinados de 10,7 bilhões de dólares de Hong Kong. A lista inclui fundos do mercado monetário, títulos verdes e produtos ligados a ouro e prata.

A Associação de Gestão de Investimentos Alternativos (AIMA) apoiou e se envolveu formalmente com reforma tributária. A entidade afirmou que participou das discussões com o governo e os reguladores e reforça que mudanças podem aumentar a capacidade da cidade de atrair gestores, profissionais e capital internacional.

Vale destacar que a reunião da próxima terça-feira não representa a aprovação definitiva do projeto. A comissão deverá analisar as condições para a concessão dos benefícios e eventuais ajustes antes de a proposta avançar no Conselho Legislativo.

[Fonte Original]

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