Puxado pelo fluxo do tempo desde a revista anterior, o Monstro do Pântano continua preso na viagem que Veitch vinha desenvolvendo desde o número #85 da série original (Irmãos em Armas), em 1989, quando o avatar do Verde foi jogado para trás da linha do tempo e passou a se materializar em diferentes épocas históricas, culminando no encontro com Jesus Cristo, em Morning of the Magician. Aqui em Time Upon a Once, vemos a continuidade da mesma estrutura, mas com um roteiro que precisa equilibrar (bem… que tenta equilibrar) a viagem do Verdão até o Big Bang, o parto de Abigail Arcane (sim, grávida a partir da semente do Verde) nos pântanos de Houma, a confissão macabra do Dr. Sax no inferno e a missão fracassada do Cavaleiro Brilhante, e o espaço de apenas uma edição simplesmente não comporta tudo isso com equilíbrio. Para mim, o maior problema é a forma como o autor tentou ligar esses blocos, personagens e situações que vinham se organizando já algum tempinho na revista do Pantanoso (e que continuaria, de maneira marginal, após a demissão de Veitch, no mediano Sobrevivência do Mais Apto, de Doug Wheeler), acabando numa edição onde nenhuma das linhas narrativas chama verdadeiramente a nossa atenção ou tem tempo de “mostrar serviço“.
A ambição filosófica do roteiro é o que sustenta algumas migalhas do nosso interesse, mesmo quando os diálogos e reflexões do protagonista se tornam um porre de ler, porque Veitch transforma o elo entre a criatura e essência/criador numa cosmogonia ao avesso, fazendo o personagem desandar pelo tempo e espaço até que a vegetação do planeta regrida das grandes florestas ao lodo unicelular, do lodo ao magma original. É claro que vemos uma ligação direta com a tradição que Alan Moore inaugurou ao reescrever o personagem como elemental ligado à teia da vida, embora a leitura de Veitch puxe menos para o assombro crítico, simbólico e romântico… e mais para uma melancolia devoradora que traz referências da ficção científica de viagem temporal entendida como “condenação“, algo nos termos de A Máquina do Tempo, de Wells; e do sofrimento cíclico que Vonnegut explorou em Matadouro 5. O tempo, aqui, é uma força que esvazia o herói à medida que ele resiste ao impulso de voltar no tempo, chegando ao ponto de ele aceitar a derrota diante do nascimento do universo, ou seja, uma trágica cartada de dignidade que o roteiro não consegue distribuir com igual cuidado pelas outras frentes da trama.
O trabalho visual é o que mais recompensa o leitor e quase compensa as falhas estruturais, sobretudo na metalinguagem com que Tom Mandrake desenha a regressão temporal como uma tira de filme rodando ao contrário, com pirâmides se desconstruindo e desertos voltando a florescer em selva, num esforço de retreinamento do próprio traço para imitar o desenho oitentista e a silhueta que o Pantanoso tinha naquela época. A colorização de Trish Mulvihill faz o serviço inverso (e igualmente engenhoso), usando uma ferramenta digital para simular a chapação atmosférica das cores dos anos 80, o que dá certa coesão nostálgica a um material nascido de duas épocas. O contraste entre o onirismo psicodélico e cósmico e a sujeira corporal do inferno, onde Anton Arcane, como uma criatura insetoide entre corpos crucificados, já indica que a próxima edição possa ter os mesmos problemas que esta, é também um pequeno mimo visual para o leitor.
Nessas últimas páginas infernais, a confissão do doutor Hubert Sax sobre o programa que mantinha vítimas em agonia, em seu hospital, para vender órgãos, planta o horror capitalista mundano e sobrepõe-se ao horror sobrenatural, fazendo valer o trauma hospitalar de Abigail — que agora é um medo concreto. De resto, não gosto nada da presença do Cavaleiro Brilhante e muito do Chronos manipulando as estruturas do fluxo temporal que puxam o Monstro do Pântano. Dentre os coadjuvantes, o único bloco que realmente me agradou foi o de Constantine, que além de ser uma âncora coesa em todo o enredo, tem sua bissexualidade confirmada (e seria a primeira vez que isso apareceria nas HQs da DC, se esta edição tivesse sido publicada em 1989). Como não foi, a tal revelação só chegou oficialmente em Hellblazer #51, de 1992). Algumas pequenas migalhas de conexões do Pantanoso com outros personagens funcionam bem, mas senti uma repetição cansativa de certos recursos, a exemplo do âmbar que o impulsiona pelo fluxo após suas materializações (a propósito, ele ter sido esmagado por uma pedra, na pré-História, foi patético!). Há uma grande possibilidade de o encontro com as forças originais do Universo (Deus-es?) trazer reflexões mais densas e mais interessantes na próxima edição ou mesmo na última desta “minissérie”. Mas só o fato de ter Anton Arcane no inferno já me deixa com o pé atrás, porque temo um desvio desnecessário. O negócio é esperar para ver.
Monstro do Pântano 1989: Time Upon a Once (EUA, 27 de maio de 2026)
Roteiro: Rick Veitch
Arte: Tom Mandrake
Cores: Trish Mulvihill
Letras: Todd Klein
Capa: Rick Veitch, Trish Mulvihill
Editoria: Alex Galer
32 páginas