As consequências da crise no Oriente Médio dominaram as reuniões da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) nesta quinta-feira (7), com novos apelos por uma frente unida diante dos sérios desafios enfrentados pelas economias do bloco, fortemente dependentes da importação de combustíveis.
As preocupações com a segurança energética e alimentar após o bloqueio do estratégico Estreito de Ormuz pesam sobre o bloco de 11 nações, que reúne quase 700 milhões de habitantes e está entre as regiões mais afetadas depois que a guerra com o Irã interrompeu o fornecimento de energia.
As Filipinas, que ocupam neste ano a presidência rotativa da associação, pressionam para acelerar a aprovação de um acordo regional de compartilhamento de petróleo.
Ministros da Economia propuseram nesta quinta-feira ideias para diversificar fontes e rotas de abastecimento e agilizar a comunicação em tempos de crise. “A Asean precisa fortalecer nossa coordenação de crise e nossa prontidão institucional em tempos de crise”, disse Ma. Theresa Lazaro, secretária de Relações Exteriores das Filipinas.
“A crise em andamento no Oriente Médio e suas repercussões de longo alcance nos lembram que acontecimentos fora da nossa região podem ter efeitos imediatos e profundos sobre a Asean”, prosseguiu antes de reunião com colegas.
Diplomatas e analistas afirmam que a questão energética será um teste para a habilidade das Filipinas como presidente do bloco, forçando o país a moldar uma rara resposta regional sem deixar que os próprios conflitos internos da Asean saiam da pauta.
Entre eles estão a guerra civil em Mianmar e a disputa de fronteira mortal e ainda não resolvida entre Tailândia e Camboja no ano passado, onde um frágil cessar-fogo permanece desde o fim de dezembro.
As Filipinas organizaram uma reunião tripla em Cebu entre o presidente Ferdinand Marcos Jr. e os primeiros-ministros da Tailândia e do Camboja nesta quinta-feira, antes da cúpula de líderes da Asean no dia seguinte.
Tropas continuam mobilizadas ao longo dos 817 km da fronteira entre Tailândia e Camboja após duas rodadas de confrontos em julho e dezembro, quando escaramuças territoriais rapidamente evoluíram para ataques aéreos e intensas trocas de artilharia e foguetes.
“Eles querem um ambiente favorável para que a reunião da Asean transcorra bem”, disse o primeiro-ministro tailandês, Anutin Charnvirakul, a jornalistas. “É por isso que querem que nos encontremos.”
Os primeiros confrontos terminaram após uma celebrada intervenção do presidente dos EUA, Donald Trump, mas seus esforços para interromper a segunda escalada fracassaram, e os dois lados semanas depois concordaram bilateralmente com uma trégua, encerrando 20 dias de combates.
A Tailândia, porém, indicou que nenhum acordo será alcançado nesta quinta-feira, com um porta-voz do governo afirmando que a prioridade é reconstruir a confiança.
Ação além da retórica
A Asean, com Produto Interno Bruto (PIB) combinado de cerca de US$ 3,8 trilhões, há muito enfrenta dificuldades para coordenar respostas a crises, com reuniões normalmente resultando em promessas de cooperação em vez de estratégias claras ou acordos vinculantes.
Nesta quinta-feira, ministros da Economia “identificaram medidas práticas e concretas” para fortalecer a segurança energética e alimentar e se comprometeram a intensificar a coordenação, afirmou a presidência do bloco em comunicado que não mencionou especificamente o plano de compartilhamento de combustíveis.
Ainda assim, a escala do choque energético provavelmente levará o bloco além da retórica, já que nenhum país da associação consegue escapar do problema, disse a ex-diplomata filipina Laura del Rosario.
Os líderes da Asean devem pedir na sexta-feira negociações de boa-fé entre Estados Unidos e Irã e o fim das hostilidades, segundo um rascunho de declaração obtido pela Reuters.
O texto também pede respeito ao direito internacional e a reabertura do Estreito de Ormuz, normalmente rota de cerca de um quinto do petróleo e gás consumidos no mundo.
“Também destacamos a necessidade de preservar o fluxo desimpedido de energia e bens essenciais … para proteger a estabilidade econômica e fortalecer a resiliência da Asean”, afirma o documento.
O rascunho ainda pede progresso rápido na ratificação de um pacto de compartilhamento de combustíveis da Asean para garantir sua “entrada em vigor o mais cedo possível”, de forma voluntária e comercial.
Mianmar busca reaproximação
Ministros das Relações Exteriores também receberam informações da enviada especial filipina, Ma. Theresa Lazaro, sobre a crise em Mianmar, questão que há muito divide o bloco. As Filipinas não deram detalhes sobre o informe.
O novo governo nominalmente civil de Mianmar busca se reaproximar da Asean após eleições vencidas por um partido apoiado pelos militares, que governam o país há cinco anos desde o golpe de 2021.
A Asean não reconheceu a eleição nem indicou quando a liderança de Mianmar — onde o líder golpista Min Aung Hlaing agora ocupa a presidência — poderá voltar às cúpulas do bloco após cinco anos de isolamento.
O governo apoiado pelos militares talvez precise convencer os países do grupo de que realmente busca a paz, após duas recentes anistias, redução de pena e transferência para prisão domiciliar da líder deposta Aung San Suu Kyi.
Pouco se sabe sobre a situação ou paradeiro da vencedora do Nobel da Paz, e as Filipinas pediram na quarta-feira que o enviado especial da Asean tenha acesso a ela, como sinal do “compromisso genuíno” de Mianmar com a reconciliação nacional.