A piora na percepção de risco geopolítico e a continuidade da rotação global em direção a empresas de crescimento — especialmente ações de tecnologia na Ásia — pressionaram o Ibovespa nesta segunda-feira. O principal índice da bolsa brasileira recuou 1,19%, aos 181.909 pontos, após oscilar entre 181.615 pontos e 184.530 pontos, em meio à alta do petróleo no exterior diante do impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã.
A redução do apetite por risco em mercados emergentes atingiu principalmente o setor bancário e as ações ligadas à economia doméstica, pressionadas pelas preocupações com a inflação e a trajetória dos juros. O volume financeiro movimentado no Ibovespa somou R$ 21,2 bilhões, enquanto a B3 registrou giro de R$ 29,1 bilhões.
As tensões geopolíticas ganharam força após o presidente americano, Donald Trump, rejeitar a proposta mais recente de Teerã para encerrar a guerra. Ainda assim, a valorização das ações de energia e tecnologia deu apoio aos índices em Nova York. O S&P 500 e o Dow Jones avançaram 0,19%, enquanto o Nasdaq subiu 0,10%.
Trump classificou a última oferta do Irã para encerrar a guerra como “totalmente inaceitável” e “estúpida” e afirmou que o “cessar-fogo está por um fio”. As declarações intensificam a alta do petróleo. Assim, os preços do Brent com entrega para julho subiram 2,88%, a US$ 104,21 por barril. Nesse cenário, as ações ordinárias e preferenciais da Petrobras avançaram 1,40% e 1,66%, nessa ordem, antes de a estatal publicar seu resultado trimestral na noite desta segunda-feira.
A piora na percepção de risco e a visão construtiva para as ações de tecnologia levam a retirada de recursos no Brasil. O chefe de mesa de renda variável da Warren, Ricardo Maluf, avalia que o rali de papéis de tecnologia na Ásia, onde o índice Kospi sobe 85% no ano, tem drenado capital de outros mercados emergentes nas últimas semanas. O movimento coincide com a recente saída de investidores estrangeiros da bolsa brasileira, lembra.
Os investidores estrangeiros registraram 11 sessões consecutivas de retiradas de recursos de ações da B3, o que levou a categoria a acumular saídas de R$ 3,3 bilhões em maio.
Ainda assim, o Goldman Sachs avalia que o movimento não deve ser interpretado como uma reversão estrutural de fluxo. Em relatório antecipado ao blog Intraday, do Valor, o banco ressalta que vê espaço para novas entradas de capital estrangeiro na bolsa local mesmo após o fim da guerra no Oriente Médio, uma vez que a participação estrangeira nas ações brasileiras ainda está próxima da média histórica de longo prazo.
“Nossas conversas recentes com investidores americanos indicam que a demanda por diversificação em ações de emergentes segue forte, assim como a visão positiva para América Latina e ações brasileiras, dada a exposição da região às exportações de commodities”, afirmam os estrategistas liderados por Kamakshya Trivedi.
A retirada de recursos do Ibovespa provocou a queda em bloco do setor bancário nesta segunda-feira. As ações preferenciais de Bradesco e Itaú caíram 2,69 e 2,25%, nessa ordem, enquanto o papel ON do BB recuou 1,19%. Já as units do BTG Pactual contraíram 2,88%, apesar do lucro líquido ajustado recorde de R$ 4,808 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 4,3% em relação ao trimestre anterior e de 42,3% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Entre as maiores quedas da sessão, a ação ON da Telefônica Brasil perdeu 6,10%. A dona da Vivo apresentou lucro líquido de R$ 1,3 bilhão no primeiro trimestre deste ano, o que representa alta de 19,2% na comparação anual. Os resultados não surpreenderam, mas as margens são ponto de atenção, na avaliação do Citi.
Além da Vivo, a C&A ON cedeu 7,69%, em dia de alta dos juros futuros, assim como a Cogna ON, que registrou perda de 6,38%.
Entre as altas mais relevantes do pregão, as ações ON da Vale avançaram 2,41% e ajudaram a amenizar as perdas do Ibovespa. Segundo o BTG Pactual, o preço do minério de ferro tem surpreendido positivamente, mantendo-se acima de US$ 100 por tonelada, enquanto a demanda da China segue mais resiliente do que o esperado. Diante desse cenário, o banco reiterou recomendação de compra para a mineradora.