Morreu na sexta-feira (15), aos 92 anos, Edmund Phelps, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2006. Segundo a esposa, Viviana, ele sofria da doença de Alzheimer.
Edmund Strother Phelps foi um dos mais importantes economistas americanos de sua geração, reconhecido internacionalmente como um pesquisador que levou a teoria econômica a novos níveis de elaboração e refinamento analítico. Foi distinguido com o Prêmio Nobel em 2006, por sua análise de ‘trade-offs’ (relações inversas) intertemporais em política macroconômica, que desenvolveu em duas áreas de impactos relacionais: desemprego e inflação; acumulação de capital e crescimento econômico.
Autor prolífico, escreveu, entre numerosos livros e artigos acadêmicos, a autobiografia “My Journeys in Economic Theory”, publicada em maio de 2023, pouco antes de ele completar 90 anos.
Era professor emérito de economia política e diretor-fundador do Centro de Capitalismo e Sociedade da Universidade Columbia. Também presidia o comitê editorial do “journal” da Universidade.
O Centro foi criado em 2002 com o propósito de analisar o que determina a capacidade de um país gerar e selecionar ideias inovadoras para criar uma economia que seja, ao mesmo tempo, dinâmica e inclusiva.
Nascido em 26 de julho de 1933, em Evanston, Illinois, lá Phelps passou a infância até os seis anos, quando seu pai, publicitário, e a mãe, nutricionista, perderam seus empregos, em meio à Grande Depressão. Cresceu em Hastings-on Hudson, Nova York, para onde a família se mudou depois que o pai conseguiu uma nova colocação.
Bacharelou-se em artes no Amherst College (1955), com foco em economia, e obteve seu Ph.D. em Yale (1959). Depois de um período na RAND Corporation (1959-60), passou os cincos e meio seguintes como pesquisador na Cowles Foundation for Research in Economics, instituto ligado à Universidade de Yale. Lecionou no Massachussetts Institute of Technology, na Universidade da Pennsylvania, na Universidade de Nova York e em Columbia, onde se aposentou em 2021. Colaborou com universidades e instituições europeias, como o Observatório Francês de Conjunturas Econômicas, Banco da Itália, Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento e a Universidade de Roma Tor Vergata.
Na apresentação autobiográfica que escreveu quando recebeu o Prêmio Nobel, Phelps lembrou que em Yale, na época de sua pós-graduação, a diversidade intelectual incluía acentuada influência keynesiana. “O que aprendi com James Tobin [então o principal nome entre os keynesianos americanos], e no meu último ano, com o jovem Arthur Okun, tornou-se uma parte importante do meu “kit” de ferramentas – algo que eu tomaria por base, para modificar.” Tornou-se um novo-Keynesiano.
Um período particularmente inovador no trabalho de Phelps se inicia em meados dos anos 1960, quando era tradicional a separação entre microeconomia e macroeconomia.
“Aqueles modelos keynesianos em que você gira a manivela e obtém o que o PIB vai ser podem ser fascinantes e podem até ter algum valor prático, mas nunca me senti muito confortável com eles. Acho que não tinham muita base”.
Passou a buscar formas de integrar as duas áreas, visando chegar a uma microfundamentação da macroeconomia. Mas não se tratava apenas de construir uma ponte. Como havia incompatibilidades absolutas entre os dois campos, foi necessário reformular muito da teoria microeconômica, para que seus preceitos pudessem se tornar uma base para a macroeconomia. Os elementos críticos que Phelps introduziu na microeconomia foram a incerteza, a informação imperfeita e o conhecimento imperfeito.
O resultado mais conhecido desse trabalho, com foco na ligação entre emprego, salários e inflação, foi o desafio de Phelps à chamada curva de Phillips (descrita pelo economista neo-zelandês Alban William Phillips em 1958), que afirmava haver uma relação inversa (trade-off”) entre inflação e desemprego.
Na moldura de sua microfundamentação da macroeconomia, Phelps argumentava que a inflação também depende das expectativas das empresas e dos trabalhadores sobre os aumentos de preços e salários – no sentido de que, uma vez que não pode haver discrepância permanente entre a inflação real e a esperada, também não há “trade-off” de longo prazo entre inflação e desemprego.
Conclui-se daí que a gestão da demanda nos termos da reflexão keynesiana só pode ter efeitos limitados e, na maior parte das vezes, transitórios. Milton Friedman também havia chegado a essa conclusão, mas sem desenvolver uma microfundamentação.
A reação nos meios acadêmicos foi grande. “Quando meus dois “papers” decisivos foram publicados, em 1967 e 1968, eu tinha 34 e 35 anos, e estava sendo atacado pelas figuras mais importantes e mais admiradas na profissão. Eu era ridicularizado. Era uma disputa sobre quem deveria ser considerado aquele que havia entendido a questão corretamente”. O embate mais intenso foi com James Tobin e Robert Solow. “Eles estavam profundamente imersos na perspectiva Keynesiana. Era uma batalha que não queriam perder.”
Outra questão em que “trade-offs” intertemporais são de importância central diz respeito à taxa desejável de formação de capital. Ao abrir mão do consumo para investir em capital físico e humano (educação e pesquisa), a geração de hoje pode aumentar o bem-estar das gerações futuras. Phelps descreveu possíveis conflitos de distribuição entre gerações. Também mostrou que todas as gerações podem, sob certas condições, beneficiar-se mudanças na taxa de poupança.
Phelps foi pioneiro na análise da importância do capital humano para a difusão de novas tecnologias e, portanto, para o crescimento. Entre outras contribuições, estão ainda suas análises sobre dinamismo econômico e empreendedorismo.
Era casado com Viviana Montdor desde 1974