O dólar à vista registrou queda consistente nesta sexta-feira, em um movimento alinhado com a dinâmica global de queda da moeda americana. Apesar de ser um movimento generalizado, o real se destacou e apresentou o melhor desempenho entre as moedas mais líquidas.
Operadores disseram que a expectativa de que a disputa eleitoral seja mais acirrada pode ter ajudado a reduzir o prêmio de risco do câmbio. Hoje deve ser divulgada a pesquisa Datafolha, e os “trackings” até aqui vêm indicando uma melhora de Flávio Bolsonaro na disputa. Diante disso, a moeda americana encerrou abaixo do patamar de R$ 5,15, e o real foi a moeda mais forte entre as 33 divisas mais líquidas acompanhadas pelo Valor.
Encerradas as negociações do mercado à vista, o dólar fechou em queda de 0,93%, cotado a R$ 5,1443, depois de ter encostado na mínima de R$ 5,1323 e batido na máxima de R$ 5,1833. Já o euro comercial recuou 0,93%, negociado a R$ 6,0076. Perto das 17h20, no exterior, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, recuava 0,07%, aos 98,830 pontos.
Desde o começo da sessão, o dólar operou mais fraco frente ao real. Ao longo do dia, a dinâmica de desvalorização foi ganhando força, até a moeda americana bater as mínimas na parte da tarde. Operadores de câmbio disseram que o movimento esteve alinhado à dinâmica global dos mercados, com as moedas de emergentes e as moedas ligadas a commodities mais fortes neste pregão.
Um gestor disse, na condição de anonimato, que não viu um motivo local para o real ser a mais forte do dia. “Perdemos mais que os pares nas últimas semanas, então, a meu ver, faz sentido devolver mais aqui quando o ambiente é mais positivo lá fora”, afirmou, lembrando que outras divisas emergentes também estiveram em destaque. Já outros profissionais apontaram que as notícias envolvendo o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a perspectiva de uma eleição mais acirrada podem ter ajudado a manter o real na dianteira. “Tem o Datafolha hoje e os trackings estão vindo melhores para o Flávio. Fora que o estrangeiro vendeu bem [dólar no mercado de derivativos], com o posicionamento melhorando.”
Para a equipe de estratégia macro do BTG Pactual, a piora recente do real em relação aos pares pode ser resultado de uma saída de curto prazo do país pelo investidor estrangeiro. Isso, por sua vez, pode refletir uma somatória de fatores, como: “i) a realização de retornos com ações brasileiras entre outubro de 2025 e abril de 2026, com performance acima da de ETFs pares emergentes; ii) as incertezas sobre a continuidade da apreciação do petróleo em razão das oscilações no conflito EUA-Irã e, agora, iii) a proximidade das eleições presidenciais, promovendo um potencial ambiente prospectivo de maior incerteza/volatilidade do que outros pares emergentes, que não estão enfrentando essa situação neste momento.””
Segundo Álvaro Frasson e Arthur Mora, o cenário-base do modelo do banco, fundamentado em premissas de mercado, indica alguma depreciação de curto prazo do real, “em razão da elevação do risco soberano nos próximos meses (fator que já vem acontecendo no CDS Brazil 10Y) e do momentum mais favorável para ativos de growth em relação aos de value [de crescimento, como tecnologia e IA, em detrimento de ativos de valor, como de energia] no mercado global.”
Estrategistas do BBVA lembram que o posicionamento no dólar permanece com uma posição comprada líquida extremamente elevada. “As posições compradas líquidas foram reduzidas em US$ 1,2 bilhão, mas permaneceram em US$ 34,3 bilhões. Embora tenha recuado em relação ao pico recente e à máxima de vários anos de US$ 48,5 bilhões registrada no final de julho, o posicionamento no dólar ainda se situa no 94º percentil dos últimos três anos”, apontam os profissionais em nota.
Esse posicionamento comprado excessivo, segundo os estrategistas, deixa o dólar suscetível a movimentos assimétricos em resposta a notícias e dados, sendo parte da justificativa para a nova e significativa desvalorização da moeda nesta semana, após o anúncio do secretário dos EUA, Scott Bessent, sobre o aumento da recompra de títulos do Tesouro dos EUA.
“Com essa queda, o dólar atingiu o menor nível em três meses, e é provável que as posições compradas líquidas tenham sido ainda mais reduzidas, mesmo que os dados da próxima semana ainda devam indicar a manutenção de posições compradas líquidas significativas na moeda.”