O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já se definiu publicamente como um político de esquerda em diferentes momentos de sua trajetória. A definição do Partido dos Trabalhadores (PT) também segue essa linha. Em levantamento feito pelo Valor com as 30 legendas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o partido se classificou como de esquerda.
Segundo Rogério Baptistini, cientista político e professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, “Lula, definitivamente, não é de direita”. Para o professor, embora o presidente não seja um quadro da esquerda tradicional, ele encarna valores que definem como esquerda.
“Ele é um político de centro-esquerda, pragmático, cuja atuação se baseia em valores de justiça social. A classificação de Lula no espectro político não pode ignorar sua trajetória histórica e as políticas implementadas durante seus governos. Sua origem no sindicalismo operário é o alicerce de sua identidade política. Nos seus governos, Lula agiu com pragmatismo, sabendo compor com forças conservadoras sem abrir mão de avanços sociais”, afirma o professor.
Procurado pelo Valor, o candidato não se manifestou. O espaço segue aberto.
As próprias declarações de Lula, porém, ajudam a mostrar como o presidente descreve sua posição política.
Lula fala em “esquerda brasileira”
Em agosto de 2021, durante o lançamento do livro e da plataforma digital Memorial da Verdade, Lula afirmou que as tentativas de enfraquecer o PT também tinham como alvo a “esquerda brasileira”.
“A tentativa de destruir o PT, a tentativa de destruir a esquerda brasileira, não deu certo. Nós conseguimos sobreviver e saímos desse processo muito mais fortes”, disse o atual presidente em 12 de agosto daquele ano.
Na mesma ocasião, Lula afirmou que o PT não deveria temer o debate sobre corrupção e mencionou também a necessidade de que “nenhum partido de esquerda” tivesse receio de discutir o tema.
“Eu me considero um cidadão de esquerda”
Uma declaração mais direta veio durante a campanha presidencial de 2022. Em entrevista ao programa Candidatos com Ratinho, do SBT, em 22 de setembro, Lula foi questionado sobre ser de direita ou de esquerda.
“Eu me considero um cidadão de esquerda. Eu me considero um socialista refinado”, respondeu.
Em seguida, explicou o que entendia por essa definição. Segundo Lula, ele poderia ser chamado de “socialista refinado” porque defendia a propriedade privada, a liberdade de organização e o direito de greve.
“Vou ficar mais esquerdista, vou ficar mais socialista”
Em agosto de 2025, Lula voltou a se definir nesses termos. Durante uma reunião do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), no Palácio do Planalto, o presidente falou sobre o combate à fome e afirmou que pretendia ampliar sua atuação nessa área.
“Significa que cada vez eu vou ficar mais esquerdista, vou ficar mais socialista”, disse Lula.
A declaração ocorreu após a divulgação da saída do Brasil do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU).
Lula diz que nunca foi um “esquerdista”
Apesar de ter se classificado dessa forma em vários momentos, Lula foi flagrado negando sua posição em uma conversa vazada com lideranças globais no encontro do Grupo dos Sete (G7) na França, em junho deste ano.
O presidente afirmou em uma conversa informal com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, que nunca foi um “esquerdista”.
Para Rogério Baptistini, a fala do presidente no G7 não surpreende. “Ele sempre foi um pragmático” diz o professor. Para ele, o que define a posição de Lula não é “o rótulo que ele assume”, mas a defesa que “sempre fez de causas como a justiça social, os direitos humanos e a democracia,” valores que ele considera ser o “núcleo do que é ser de esquerda”.
“Em um mundo onde a direita radicaliza o discurso contra a esquerda, Lula parece ter optado por desarmar o ataque com uma dose de realismo político”, afirma o especialista.
O professor considera que os governos anteriores do candidato são o suficiente para definir sua posição. “Basta lembrar que, durante seus governos, políticas como o Bolsa Família ou a expansão do SUS materializaram esse compromisso com a justiça social, independentemente de autodeclarações ideológicas”.
*Estagiário sob supervisão de Diogo Max