Quando a Estética Vira Risco: o Preço da Banalização dos Procedimentos

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Nunca se fizeram tantos procedimentos estéticos. E, ao mesmo tempo, nunca me preocuparam tanto as complicações que chegam aos consultórios médicos. Toxina botulínica, preenchimentos, bioestimuladores e tecnologias cada vez mais sofisticadas se popularizaram em uma velocidade impressionante. O problema não está no crescimento da medicina, mas na banalização de procedimentos que, embora muitas vezes minimamente invasivos, exigem conhecimento médico, domínio profundo da anatomia, capacidade diagnóstica e preparo para reconhecer e tratar uma complicação.

Na prática clínica, temos observado um aumento preocupante de intercorrências relacionadas a procedimentos realizados por profissionais não médicos. Um estudo multicêntrico brasileiro publicado na Dermatologic Surgery ajuda a dimensionar o problema. Foram ouvidos 1.058 médicos, principalmente dermatologistas e cirurgiões plásticos, sobre complicações decorrentes de procedimentos estéticos realizados por profissionais não médicos. Em média, cada entrevistado relatou atender cinco complicações desse tipo por mês. Em 17% dos casos, houve sequelas permanentes. Cicatrizes foram relatadas por 78,68% dos médicos, processos inflamatórios por 72,15% e infecções por 65,43%.

Nas redes sociais, vemos a seringa, a aplicação, o aparelho, o antes e depois e o resultado imediato. Quase nunca vemos o outro lado: a infecção, a necrose, a cicatriz ou o paciente que precisa passar por meses de tratamento para corrigir uma complicação. Em determinadas situações, minutos podem interferir no desfecho. Isso não significa criar medo em torno da medicina estética. Muito pelo contrário. Trabalho diariamente com procedimentos estéticos e acompanho de perto quanto essa área evoluiu. Hoje temos recursos extraordinários para tratar a pele, estimular o colágeno, melhorar contornos e acompanhar o processo de envelhecimento de maneira cada vez mais individualizada e natural.

Mas evolução das técnicas e procedimentos sem formação adequada traduz o quadro de aumento das complicações que estamos enfrentando no momento. E talvez este seja um dos principais problemas da estética de hoje: aprendemos a falar muito sobre o que um procedimento pode entregar e pouco sobre quem está preparado para indicá-lo, executá-lo e, principalmente, saber tratar suas possíveis complicações. Por isso, o paciente precisa aprender a perguntar: Quem é o profissional que realizará o procedimento? Qual é a sua formação? Ele tem especialização e experiência naquela técnica? O produto utilizado possui registro na Anvisa? Quais são as possíveis complicações? E, se alguma delas acontecer, quem estará preparado para tratá-la?

A medicina estética avançou demais para ser reduzida a procedimentos rápidos, tendências de redes sociais ou aplicações reproduzidas em série. A pele é o maior órgão do corpo humano. Tratá-la exige conhecimento médico, diagnóstico, responsabilidade e, acima de tudo, respeito ao paciente. Porque, na medicina estética, segurança não é uma etapa do tratamento. É o ponto de partida.

*Dra. Letícia Nanci é especialista em dermatologia pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, da Academia Americana de Dermatologia (AAD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD)

*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

[Fonte Original]

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