A Netflix quer que seus filmes e séries continuem na vida dos fãs mesmo depois dos créditos. Com esse objetivo, a empresa assume diretamente a operação de licenciamento de produtos no Brasil a partir de 2027.
Em entrevista exclusiva à Forbes Brasil, a diretora de Licenciamento de Produtos da Netflix para a América Latina, Paola Ogaz, fala sobre os planos para o país, os cases de sucesso na área e o espaço para produções nacionais em um negócio que cresceu mais de 40 vezes globalmente em dez anos.
A nova operação no mercado nacional é vista por Paola como um passo natural, que permitirá decisões mais rápidas, com foco em relevância, engajamento e inovação.
A executiva destaca que o Brasil reúne uma das culturas de fãs mais apaixonadas do mundo e que as produções da Netflix já deram origem por aqui a brinquedos, roupas, alimentos e itens de beleza.
Confira a entrevista:
O que levou a Netflix a assumir diretamente a gestão do licenciamento de produtos no Brasil?
O melhor que podemos fazer pelos nossos fãs é trabalhar lado a lado com parceiros de excelência no Brasil para criar produtos que realmente levem suas histórias favoritas para suas vidas. Por isso, a operação direta é um passo natural na evolução do nosso negócio de Licenciamento de Produtos no Brasil, à medida que avançamos, local e globalmente, para parcerias cada vez mais ousadas, inovadoras e com a cara da Netflix. O trabalho com um representante comercial foi muito importante para construir nossa trajetória no Brasil, e a parceria com a Redibra não poderia ter sido melhor. Mas, para entregar ainda mais aos fãs, precisamos estar ainda mais próximos dos nossos parceiros licenciados, com uma equipe local maior e dedicada a tomar decisões mais rápidas, com foco em relevância, engajamento e inovação. A partir de 2027, nosso time assumirá diretamente esse relacionamento comercial com esses parceiros, combinando nosso conhecimento dos fãs e dos universos das histórias da Netflix com a experiência das marcas em produtos, categorias e varejo. Adotamos esse modelo no México há cerca de um ano e meio, e esses aprendizados são uma referência para essa nova etapa no Brasil.
Qual é o papel dos produtos de consumo na estratégia da Netflix hoje?
Na Netflix, os produtos de consumo são uma das formas mais concretas de mostrar nosso relacionamento com os fãs, com nossos assinantes. Quando alguém termina uma série ou um filme, a vontade de continuar naquele universo não acaba ali, e é aí que entram os produtos licenciados. Para a Netflix, isso amplia o valor das nossas histórias e mantém os fãs conectados aos títulos. Para as marcas parceiras, é a oportunidade de entrar em universos culturais onde já existem paixão e demanda, gerando resultados em receita, inovação de produtos e lembrança de marca.
Quais categorias ou formatos estão no radar a partir do ano que vem?
Há potencial em diversas categorias justamente porque nosso catálogo de histórias oferece qualidade, variedade e volume, e porque temos uma abordagem inovadora para a grande maioria delas. Essa combinação está diretamente ligada às inúmeras possibilidades de criação de produtos. Algumas parcerias em que trabalhamos bastante continuarão no nosso radar no ano que vem, como as batatas Pringles de Stranger Things, a coleção de maquiagem Bridgerton by Bruna Tavares e o Fiat Pulse Abarth Edição Especial Stranger Things. Eu posso adiantar que, logo no início de 2027, teremos grandes marcas com produtos em parceria com o filme Nárnia.
É uma fonte de receita relevante ou funciona mais como ferramenta de engajamento?
Para a Netflix, as duas coisas caminham juntas, mas certamente é uma importante estratégia de negócio das marcas parceiras. O licenciamento de produtos na Netflix começa sempre pelo fã, ou seja, precisa fazer sentido para as pessoas; precisa ser algo realmente útil em algum aspecto; precisa levar a história para a vida real delas. Isso parte de como cultura, criatividade e inovação se entrelaçam para gerar demanda real de produto. Alguns exemplos recentes são provas de que um produto pode fazer parte da rotina de alguém por muito mais tempo que o lançamento de uma série. Por isso, olhamos tanto para vendas e presença no varejo quanto para a relação que esses produtos ajudam a manter com as pessoas ao longo do tempo.
Como a Netflix decide quais títulos podem virar uma linha de produtos?
Tudo começa pela história e pelo que desperta o interesse dos fãs. Quais personagens eles mais comentam? Que elementos daquele universo gostariam de trazer para o dia a dia? Quando falamos de novas temporadas, essa escuta fica ainda mais rica porque olhamos para como os fãs se relacionaram com a temporada anterior, o que viralizou, o que virou referência, o que pediram mais, e usamos essa inteligência para planejar os próximos passos.
Nós também temos histórias inéditas que já sabemos que vão ser um fenômeno antes mesmo da estreia. Isso vem da relação longa e próxima que temos com nossos fãs e de tudo o que aprendemos sobre conteúdo e audiência ao longo dos anos. Guerreiras do K-Pop é um ótimo exemplo. Pelo nosso conhecimento sobre conteúdo coreano e sobre o público infantil e jovem adulto, sabíamos desde o início que o filme tinha tudo para ser um sucesso, e foi exatamente o que aconteceu. É essa expertise que oferecemos às marcas: a capacidade de identificar movimentos culturais com antecedência para que elas possam se antecipar e estar prontas quando o fandom explodir. A partir daí, trabalhamos com os parceiros para entender quais propostas de inovação fazem sentido. Queremos que o produto seja desejável por sua qualidade, seu design ou sua utilidade, e que a ligação com uma história que o público ama o torne ainda mais especial. É essa combinação, junto com o potencial comercial, que orienta nossas escolhas.
Quais são os cases de sucesso envolvendo o licenciamento de produtos?
Guerreiras do K-Pop é um dos exemplos recentes mais fortes do “efeito Netflix”: quando uma história movimenta a cultura, influencia comportamentos e gera demanda para além das telas. O sucesso do filme despertou nos fãs o desejo de viver diferentes aspectos daquele universo e abriu oportunidades em brinquedos, colecionáveis, moda, papelaria, livros e alimentos. No Brasil, tivemos produtos com parceiros como Candide, Grow, Ediouro, Grendene, Tilibra e Knorr, fora as marcas globais que também chegaram ao país. Essa variedade de categorias mostra a dimensão que a conexão com os fãs pode alcançar. A Seara, por exemplo, assumiu a liderança em produtos licenciados na categoria Alimentos ao transformar o universo de Stranger Things em uma experiência gastronômica, com uma pizza exclusiva de dois sabores e massa preta com cacau, inspirada no Mundo Invertido. Uma inovação que levou a identidade da série diretamente para o produto, conectando entretenimento e consumo de forma criativa.

Como o mercado brasileiro se posiciona na América Latina e no cenário global em licenciamento?
O Brasil é um dos maiores mercados da região e tem importância estratégica para o negócio de licenciamento de produtos da Netflix. A decisão de operar diretamente no país reforça isso. Aqui, encontramos uma combinação rara: uma das culturas dos fãs mais apaixonados do mundo, muita criatividade e parceiros que conhecem profundamente suas categorias e o consumidor brasileiro. São marcas que não só licenciam nossas histórias, mas trazem ideias para explorá-las conjuntamente.
Todo esse trabalho foi reconhecido na LicensingCon Latam 2026, principal evento do setor, em que a Netflix venceu na categoria Jovem Adulto com a parceria entre Comfort e Bridgerton e foi reconhecida na categoria IP Destaque com Guerreiras do K-Pop. Também vencemos no Effie Awards Brasil 2026 com os produtos da Hellmann’s, da Pringles e da Yoki em parceria com Stranger Things no Brasil. Agora, a operação direta nos aproxima ainda mais desses parceiros para combinar a força global das nossas histórias com o conhecimento local e acelerar o potencial do Brasil.
Existe espaço para licenciar produções brasileiras?
Claro, existe espaço, sim. Toda história pode ter potencial para gerar produtos e experiências, dependendo da conexão que estabelece com o público. No caso das produções brasileiras, essa conexão pode ser ainda mais direta e autêntica, por trazer personagens, histórias, símbolos, referências e elementos culturais com os quais os fãs se identificam e que já vivem, em alguns casos. Nosso papel é identificar esse potencial e, junto com parceiros, encontrar as melhores formas de transformá-lo em algo relevante para os fãs. Com a série Senna, a Persol lançou a coleção Persol Senna Series, que recria os óculos icônicos usado por Ayrton e chegou a mais de 2.000 pontos de venda em mais de 15 países. A Fanatics criou uma linha de roupas e bonés vendida nos EUA, na Europa e no Brasil. No Brasil, a Heineken lançou edições especiais de seus rótulos, incluindo a Heineken 0.0, para celebrar a estreia.
Como a Netflix pretende lidar com produtos não oficiais no Brasil?
Desenvolvemos uma oferta de produtos inovadores, de qualidade e fiéis aos universos das nossas histórias, disponíveis em diferentes categorias e faixas de preço, que os fãs conseguem reconhecer facilmente como oficiais. Os produtos não oficiais exigem atenção à proteção da nossa marca e das nossas propriedades intelectuais, além de cuidado para que os fãs não se frustrem e mantenham a melhor relação possível com suas histórias favoritas. Por isso, adotamos medidas específicas para preservar o valor dessas histórias para os fãs e para os parceiros licenciados, incluindo medidas legais para proteger nossas propriedades intelectuais quando necessário.