Quando criança, Marina Iris ficava debaixo da mesa contando os pés dos adultos que se divertiam numa roda de samba. Sua infância foi cercada de música: avó e tias pianistas, pai violonista, mãe amante de samba e, como madrasta, a cantora e compositora Gisa Nogueira, irmã de João Nogueira. Ainda assim, foi só aos 30 anos que ela se envolveu de vez com o assunto.
— Por um tempo, eu fui professora e queria continuar sendo professora. Não achava que daria para ser profissional — explica.
Ela correu atrás do tempo pouco aproveitado. Reconhecida hoje, aos 42 anos, como uma das principais intérpretes de samba, de voz grave e encorpada, já está lançando o quinto álbum solo, “Banzo batucada — Marina Iris canta Wilson Moreira” (Biscoito Fino). São 12 músicas do grande compositor e mais duas feitas em homenagem a ele.
Marina estava matutando um trabalho sobre Wilson quando se deu conta de que ele, que morreu em setembro de 2018, completaria 90 anos no próximo 12 de dezembro. Começou a montar o repertório, mas nada de sucessos. Não se espere sambas inesquecíveis que ele fez com Nei Lopes como “Senhora liberdade”, “Coisa da antiga” e “Gostoso veneno”.
— Eu fui ver o show da Bethânia, de 60 anos de carreira, e ela não cantou os maiores sucessos. Eu falei: “que bom, queria ouvir coisas que eu nunca ouço!”. Mas teve gente que queria ouvir os sucessos. É difícil agradar — comenta ela, avisando, porém, que não tem coisas do fundo do baú. — Não são os sucessos, mas também não é o lado C. Tirando o “Okolofé”, todas as músicas tocavam em roda. Quando canto “Silêncio de um bamba”, por exemplo, aprendi em roda.
Ela diz “tocavam em roda”, no passado, porque não tem mais ouvido as músicas de Wilson por aí. É comum as rodas, em sua maioria, ficarem com o “repertório bastante viciado”, segundo ressalta.
— Com a tiktokização da vida, as pessoas são estimuladas a cantarem só o que conhecem, o que já está dado. O tempo da pesquisa, de ouvir para aprender uma coisa nova, está acelerado. E não sou eu que vou salvar meu tempo. Mas (o álbum) pode ter um impacto. Se eu lanço esse disco na Lapa dos anos 2000, ele estaria acompanhando o fluxo. Hoje, está mais na contramão — assinala ela, destacando que dá para ouvir Wilson em rodas como Terreiro de Mangueira, perto da quadra da escola, na Zona Norte, e Terreiro de Crioulo, em Realengo (bairro onde o compositor nasceu), na Zona Oeste.
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Marina cursava Letras quando, na faculdade, conheceu Manuela Oiticica, a Manu da Cuíca, percussionista e uma das melhores letristas da geração de ambas. Manu disse que a nova amiga precisava aprender 40 sambas para cantar nas rodas em que fosse. Assim, ela foi ficando conhecida. Mas, para pensar em profissionalismo, teve que mudar o rumo da vida.
— Eu e Manu demos aula na mesma escola, no Ensino Fundamental. Ficava muito cansada dando aula. Minha voz era muito cansada. Fui trabalhar com a Manu na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e comecei a descobrir minha voz — conta Marina.
O primeiro cachê, no final de 2005, quem deu foi Ricardo Oiticica, pai de Manu, por ela ter cantado numa festa. Mas Marina considera o marco inicial para valer de sua carreira o primeiro álbum, que leva o seu nome, de 2014, e o lançamento dele, num Teatro Rival lotado.
Depois vieram (além dos coletivos) “Rueira” (2018), “Voz bandeira” (2019) e “Virada” (2023), no qual contou com a participação de Péricles. Neste novo, ela convidou muita gente.
— Isso tem a ver com o homenageado. Não conheço quem fale mal do Wilson — afirma ela. — O Zeca Pagodinho estava de férias e aceitou gravar. Quando cheguei no estúdio, estavam Jorge Aragão e Teresa Cristina. Todos começaram a falar do Wilson com respeito e carinho. Ele atravessa corações.
Teresa terminou sua participação chorando, porque gravou uma música que seu pai cantava para ela, “Alegria perdida” (de Wilson e Candeia). Aragão fez novo registro de uma parceria dos dois, “Quintal do céu”, e o chamou de “meu ídolo”. Zeca também gravou, em duo com Marina, uma parceria com Wilson, “Moenda velha”.
Depois de fazer a sua parte, Zeca pediu para ouvir “Mestre Wilson soberano”, samba de Marina e Manu, faixa de abertura do álbum.
— O Zeca não faz média, é da sinceridade. Ele pegou na minha mão e disse: “O Wilson estaria muito orgulhoso de você”. Foi o Prêmio da Música Brasileira para mim. Chorei de emoção e de exaustão, porque o processo é duro: muito tempo, dinheiro, energia, sentimentos — recorda ela
Outra música feita especialmente para o projeto é “Moringa do Moreira”, de Marquinho China e Luiz Carlos Máximo, cantada pelos ótimos improvisadores China, Gabrielzinho do Irajá e Mosquito.
Para um samba com letra de teor social, “Canteiro de obra” (de Wilson e Sérgio Fonseca), Marina convidou a potiguar Juliana Linhares e o paraibano Chico César. E, como não poderia deixar de ser, convidou Nei Lopes. Junto com Marina e o Terreiro de Crioulo, ele canta “Jongo do irmão Café”, parceria sua com Wilson.
— Eu queria muito ver esse encontro. O pessoal do Terreiro ficou emocionado de ver o Nei — recorda ela.
O título do álbum, “Banzo batucada”, não foi extraído de nenhuma música. Marina diz que “queria um nome sonoro e que sintetizasse a obra do Wilson”.
— A característica do sambista é transmutar em alegria suas tristezas, suas agonias e também suas felicidades, sua religião, sua ancestralidade. Banzo é esse lamento, fala de memória, de deslocamento, e se transforma numa outra coisa ao virar batucada. Gosto da dualidade banzo/batuque, e, se aglutinar as sílabas iniciais, vira “ban-ba”. O bamba tem a capacidade de driblar e superar dificuldades — diz ela, citando um verso de Wilson de que gosta muito, presente em “Formiga miúda”: “Só se apaga uma dor da alma quando o samba esmaga palma contra palma”.
Faz 20 anos que Marina conheceu Wilson, no bar Bip-Bip, em Copacabana. Ao longo do tempo, encontraram-se mais vezes, inclusive no Solar Wilson Moreira, que ele mantinha na Praça da Bandeira (Zona Norte). Uma vez, o viu cantando na Portela e quase levantando o braço que ficara comprometido por causa de um derrame.
— Ele sempre muito gentil, generoso. Wilson não era desse mundo. Foi dessas pessoas que passam por aqui e, numa encarnação só, já cumprem o que precisavam fazer — exalta a cantora, que pretende fazer um show de lançamento numa data próxima aos 90 anos do homenageado.