Após a Polícia Federal lançar uma nova fase da Operação Disclosure, em junho, que investiga o caso de fraude na Americanas, o CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, afirmou que os bancos tiveram perdas bilionárias com o caso.
Na ocasião, passaram por busca e apreensão José Rudge, diretor do Itaú BBA, e Gustavo Balassiano, ex-superintendente do Itaú. “A Americanas foi uma das maiores fraudes já vistas. Saindo da administração [da varejista], todos os demais são vítimas. O sistema financeiro teve perdas bilionárias no caso. Como pode ser conivente se perdeu dinheiro? É ilógico imaginar isso”, disse em entrevista coletiva sobre os resultados do banco no segundo trimestre, ao ser questionado sobre a operação da PF.
Ele ressaltou que, mesmo se forem consideradas as receitas que os bancos tiveram com as operações de risco sacado com a Americanas nos anos antes de a fraude ser descoberta, ainda assim eles tiveram prejuízos bilionários. “Se colocar na balança, essas receitas menos as perdas, é algo super negativo. E os bancos não tinham visibilidade. O que a empresa discutia com o sistema financeiro era se essas contas seriam classificadas como empréstimo bancário ou com fornecedores. Ninguém imaginava que eles estavam ocultando passivo”, disse.
Em junho, quando a nova operação da PF foi lançada, o Itaú já tinha dito que não é investigado, mas colabora com as autoridades. “O banco, que sofreu perdas bilionárias com o episódio, já comprovou a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários por meio de documentos apresentados à Justiça. Os registros deixam claro, por exemplo, que o Itaú recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços.”
Maluhy disse confiar que o avanço das investigações vai deixar claro quem são os responsáveis pela fraude na Americanas.
Na entrevista coletiva, Maluhy destacou que o cenário macroeconômico — não apenas local, mas também global — faz com que o banco adote um “olhar mais cauteloso”. Segundo ele, além da guerra no Irã, que gera impactos inflacionários, a economia pujante dos Estados Unidos (EUA) dá sinais de que o Federal Reserve (Fed) poderá elevar a taxa de juros.
“A gente sempre tem um olhar cauteloso olhando para frente, não só pelo cenário local, mas especialmente pelo cenário global”, disse o CEO do Itaú. “A gente está vivendo uma guerra importante e que não termina, que afeta claramente os preços, então gera impactos inflacionários no mundo todo. E nos Estados Unidos a gente está vendo uma economia muito pujante, muito forte, dando sinais de que o Fed vai precisar aumentar os juros.”
Maluhy explicou que, diante desse cenário, é esperada uma “pressão em todo o mundo”, já que os investidores estão decidindo onde alocar seus recursos. “A gente vem de um processo de juros bastante restritivos no Brasil. A gente prefere um ambiente com juros muito mais baixos. Isso é muito mais saudável para a economia, para os bancos, para a inadimplência, para a atividade. E quanto mais incerteza à frente, o empresário fica cada vez mais inseguro”, afirmou.
O executivo explicou que, diante da desaceleração gradual da atividade econômica, o banco revisou sua projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2,1% para 1,9% neste ano. “A gente vê espaço, sim, para uma inflação mais controlada, para uma atividade desacelerando e para mais um corte [de juros na próxima reunião do Copom]”, afirmou.
“Para frente ainda é muito incerto, vai depender de ‘n’ fatores, especialmente de como os Estados Unidos vão se comportar se os juros subirem. Então, isso é um cenário que requer cautela, porque juros muito altos por tempo prolongado geram, sem dúvida, uma pressão na atividade, no endividamento, não só das empresas, como das famílias”, afirmou.
Em relação ao crédito, Maluhy destacou que o comprometimento da renda das famílias segue elevado, apesar dos programas governamentais, e que a inadimplência no mercado continua em alta. “Apesar disso, eu acho que a nossa estratégia ao longo dos anos tem dado resultados muito fortes. Primeiro, de posicionamento do portfólio, equilíbrio do portfólio ao longo do tempo, foco em grupos de clientes de todas as rendas mais resilientes ao longo do ciclo. Isso tem feito com que a gente tenha navegado, apesar de um momento um pouco mais desafiador, muito bem, pelo custo de crédito e pela inadimplência.”
Maluhy também afirmou que a alíquota efetiva de impostos do Itaú tende a ficar próxima do piso do ‘guidance’ neste ano, entre 29,5% e 32,5%, mesmo com o efeito provocado pelos juros mais altos.
O vice-presidente financeiro do Itaú, Gabriel Moura, explicou que a revisão no ‘guidance’ de receitas de serviços foi motivada pela volatilidade nos mercados de capitais, maior do que a esperada no início do ano. “A gente está mantendo o ‘guidance’ nas demais linhas, mas também porque a gente vê uma taxa de juros mais alta do que as expectativas que a gente teve quando a gente fez o ‘guidance’”, afirmou, acrescentando que isso afeta os juros sobre capital próprio (JCP) e a alíquota efetiva de impostos.
Moura destacou ainda a qualidade da carteira de crédito do banco, que segue com uma “performance muito boa”. No Brasil, a carteira de pessoas físicas manteve a inadimplência de curto prazo estável em 3% no segundo trimestre de 2026 nas comparações trimestral e anual.
Já a inadimplência acima de 90 dias passou de 3,6% há um ano e no trimestre anterior para 3,7% neste segundo trimestre, movimento que, segundo o executivo, é “altamente esperado” em razão da sazonalidade observada no primeiro trimestre.
Em relação às micro, pequenas e médias empresas (MPMEs), a inadimplência de curto prazo subiu de 1,2% há um ano e de 1,4% no trimestre anterior para 1,5%. Já a inadimplência acima de 90 dias avançou de 1,6% e 1,9%, nas mesmas bases de comparação, para 2,0%.
Segundo Moura, o indicador ainda deve registrar uma alta marginal antes de se estabilizar em torno de 2,1%. “Vocês veem aquele aumento que eu tinha já mencionado há alguns trimestres, e a gente tem comentado com o mercado que é fruto justamente da participação dos programas governamentais, das carências que esses produtos têm, e, chegando ao fim dessas carências, começam pagamentos, e aí a gente vê uma normalização do atraso em relação a níveis anteriores que a gente tinha”, explicou, em entrevista coletiva sobre os resultados do segundo trimestre de 2026.
Moura também destacou o desempenho do banco no crédito consignado privado. A carteira cresceu 14,3% no trimestre e 90,1% em 12 meses. “Um produto em que nós somos líderes e crescemos 14,3% neste trimestre. Um produto novo e que tem um crescimento forte em relação a junho do ano passado.”
O executivo ainda comentou o retorno sobre o patrimônio (ROE) consolidado, que ficou em 24,3% no segundo trimestre, abaixo dos 24,8% registrados no primeiro trimestre, mas acima dos 23,3% apurados no segundo trimestre de 2025. No Brasil, o indicador foi de 25,7%, ante 26,4% há um ano e 24,4% no trimestre anterior. Moura explicou que, se o banco operasse com o nível mínimo de capital definido pelo conselho de administração, de 11,5%, em vez dos 12,3% atuais, o ROE teria alcançado 25,1% no consolidado e 26,7% no Brasil.