24.5 C
Brasília
domingo, maio 3, 2026

André Santa Rosa: Poesia entre passado e presente – Revista Cult

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

O escritor André Santa Rosa, autor de ‘Praia esgarçada alegria’ (Stig de Lavor)

 

 

“O artista moderno Mário de Andrade quando esteve em Maceió, em 1928, reconheceu a cidade como uma pequena garça que repousa na praia prestes a fazer o seu primeiro voo. Foi ao comércio: pouco movimento, cidade pequena. Cabe em minhas mãos, agora, uma fotografia.”

Assim se inicia Praia esgarçada alegria, publicado este mês pelo Círculo de poemas, segundo livro do poeta, jornalista e crítico André Santa Rosa, que publicou anteriormente Retratos de ruínas & outros fantasmas comuns, em 2021, pela Urutau. Além de resgatar a paisagem densa da cidade natal do autor, a memória de Mário de Andrade compõe apenas uma das múltiplas imagens que Santa Rosa evoca como forma de tensionar memória e arquivo em sua linguagem poética.

Sua intenção: “Criar um longo poema com elementos narrativos que, através da linguagem, elaborasse algumas obsessões minhas” – explica o autor em entrevista à Cult. Entre suas obsessões: “O arquivo como modo de operação, a história como repetição e o poema como a forma para acessar tudo isso”.

Ao utilizar experimentalismos formais e miradas políticas sobre a história, Praia esgarçada alegria conduz o leitor por um campo multidisciplinar e muito frutífero da poesia contemporânea – estabelecendo diálogos com a fotografia e as artes visuais. Seu principal fio condutor são fragmentos que tensionam a relação política entre passado e presente a partir de histórias de perseguidos pela ditadura militar brasileira.

 

De onde partiu a ideia de escrever Praia esgarçada alegria?

A escrita de Praia esgarçada alegria passa pela ideia de criar um longo poema com elementos narrativos que, através da linguagem, elaborasse algumas obsessões minhas: o lugar que nos deixa enredados, o arquivo como modo de operação, a história como repetição e o poema como a forma para acessar tudo isso. Para o poeta, o poema é o formato de fixar suas obsessões. Elas não se solucionam, ganham forma e ficam visíveis. Sendo assim, eu quis escrever um livro que fosse como um lugar povoado por personagens, com histórias e uma trajetória temporal.

O primeiro material foi o relato de Mário de Andrade e a fotografia da Avenida da Paz, que estão no início do livro. Queria trabalhar com essa paisagem de Maceió que é celebrada pela cidade, mas que é, também, historicamente densa e fruto de contradições. Assim nasce a pesquisa do livro, que se espraia para outros lugares. Nesse sentido, ele começa de dia e vai anoitecendo com o passar das páginas. O livro vem de um gesto em que o processo criativo e a pesquisa são muito expostos. São o registro da própria obra.

 

Alguns fragmentos percorrem todo o livro contando histórias de pessoas perseguidas pela ditadura. O que o levou a contar essas histórias? Que papel você atribui à poesia no campo mais amplo da memória?

Assim que me mudei para São Paulo, passei a trabalhar com o tema da ditadura junto ao Núcleo de Preservação da Memória Política. Fiquei imerso nessa temática por alguns anos, o que acabou impactando a pesquisa do livro. Eu morava a poucas ruas do antigo DOI-Codi de São Paulo. Sempre passava na frente do prédio, a ponto de torná-lo parte da minha imaginação e do meu convívio com a cidade. Fui criando associações de diferentes lugares e tempos da vida, algumas coincidências foram aparecendo. A memória parece caótica, mas sempre existem simetrias.

A poesia pode elaborar algo sobre a memória social. Seja Basílio da Gama versando sobre um episódio histórico recente naquele período, em O Uraguai, de 1769, ou Carlos Drummond de Andrade tratando da guerra, em Congresso Internacional do Medo, de 1940, só para citar alguns. Existe um texto de Antonio Candido que diz que a poesia das sociedades permite avaliar a importância da experiência do cotidiano com referência a atividade e objetos impregnados de valor. Ou seja, a poesia pode ser uma recorte da expressão do que é e foi uma sociedade. No caso de Praia esgarçada alegria, estou tratando dessas simetrias entre memória pessoal e memória política, e entre passado e presente.

 

É interessante notar como a natureza aparece em alguns poemas principalmente como um objeto de elaboração do trabalho humano. Por exemplo, quando você fala da “imortalização da árvore no mundo cultural”, em Velázquez. Em que medida essa interface entre natureza e trabalho interessa a você como objeto de investigação poética?

O livro abre com a história em que Mário de Andrade vai a Maceió, vê o mar e escreve que nenhum pintor conseguiria mimetizar aquele verde. Essa frase de Mário sobre o verde de Maceió me fascina muito. É como se nela estivesse contida a genialidade da expressão do “turista aprendiz”. Todo turista, de alguma forma, fracassa ao tentar assimilar o novo lugar. Para mim, essa é a alegoria precisa para pensar o próprio gesto de escrita: a tentativa frustrada de chegar naquele tom de verde ou, em outras palavras, o trabalho do poeta de usar a linguagem para elaborar uma subjetividade complexa. Essa ideia do equívoco que é nomear a natureza e a paisagem me acompanhou durante todo o processo, já que era justamente o que estava tentando fazer ao criar um lugar, forjar arquivo e memória.

 

Alguns dos poemas do livro, principalmente da segunda parte, servem de elementos matemáticos ou cartográficos, como planos e retas para construir sua linguagem poética. Em que medida esse polo extremamente racional da linguagem pode coabitar a dimensão sensível do poema?

Penso que o poema pode ser muito preciso e racional, como é em João Cabral de Melo Neto, por exemplo. O poema parte de uma subjetividade que vai ser estruturada pela linguagem. Nesse momento do livro, estava interessado em pensar nessa geografia do lugar imaginário em termos cartográficos, como você bem disse. É uma poesia toda marcada pelo deslocamento físico. A ideia foi entregar ao leitor direções para algo que não existe. Memória e arquivo são conceitos indissociáveis, mas com concepções quase opostas, e que no livro estão embaralhados.

 

Algo que chama muita atenção na sua poesia é o diálogo estabelecido com a fotografia e a memória. André Bazin já falava sobre o “complexo de múmia” das artes plásticas – e, em especial da fotografia – de salvar o que é retratado de uma “segunda morte”. Você vê o poema como um gesto semelhante de preservação? O que o levou a recorrer à fotografia como motivo poético?

Na verdade, eu acredito que são duas linguagens de regime de valor muito diferentes na arte. Justamente por isso eu queria as fotografias, porque estou o tempo todo falando de arquivo e história. Eu queria colocar isso em uma relação de tensão com a poesia. Então, no Praia esgarçada alegria a fotografia não é apenas um recurso ilustrativo, ela se articula com o poema produzindo ambiguidades. A ideia era ir sacando esses elementos de forma muito espontânea, como se retirados de uma caixa ou de um disco rígido, e, ao longo do livro, deixar que os arquivos fotográficos fossem contaminados pela subjetividade da poesia. Adoro filmes em que os personagens ficam intrigados pela própria imagem, como em Blow-up (Depois daquele beijo), de Michelangelo Antonioni. Nós sabemos que as fotografias também são fruto de subjetividade. Ao final do livro o regime de verdade das fotos é completamente perturbado, assim como o eu lírico é perturbado por esses arquivos.

 

O escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu que “cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro”. Quais poetas ou artistas você elege como seus precursores?

Acredito muito no caminho feito por alguns poetas nordestinos como João Cabral de Melo Neto e Jorge Cooper. Cabral pelo rigor com linguagem. Pra mim o melhor poeta em língua portuguesa. E Cooper por acessar uma sensibilidade complexa através de olhares e estruturas a princípio simples.

Gosto muito de um livro da poeta Bernadette Mayer chamado As Helenas de Tróia, NY. Acho seu processo de criação muito interessante, a partir de coincidências entre personagens e locais muito distantes na história: são poemas para mulheres chamadas Helena, residentes na cidade de Tróia, Nova Iorque. Ela monta uma Tróia contemporânea e íntima. Mayer explora bastante a relação poema e imagem em diversas obras.

Especialmente durante a escrita de Praia esgarçada alegria foi muito importante para mim o disco Novena do Djavan, e a canção “O estrangeiro” do Caetano Veloso, que traz o olhar do viajante que chega na América do Sul completamente fixado nos tristes trópicos, na melancolia. Também o curta-metragem Ulisses, da Agnes Varda, e as pinturas navais do William Turner.

 

Como você vê o espaço para a poesia no mercado editorial atual?

O público leitor de poesia é mais restrito se compararmos com o da prosa, por exemplo. Chega a ser desproporcional a relação entre a quantidade de leitores e o número de autores com uma produção excelente. De certa forma, ao ocupar essa margem, surgem muitos projetos interessantes para poesia. É o caso das editoras independentes, que são muitas, e todas seguem com propostas curatoriais específicas, o que ajuda a diversificar o segmento.

 



[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img