Existe um ponto da relação de Donald Winnicott com a vida que também foi fonte de investigação de Adam Phillips, em seu livro The cure for psychoanalysis [A cura para a psicanálise], que trata da questão de saber o que é a vida, em si mesma, para além da sua qualificação presta/não presta. Todos recordam do momento em que, no brincar e realidade, Winnicott coloca com a mesma ingenuidade das crianças a pergunta: “sobre o que versa a vida?”; e nos relembra que antes de se perguntar se a vida presta a gente precisaria saber o que é a vida em si mesma.
Winnicott, pesquisando com a alma cheirando a talco como bumbum de bebê (incorporando a feliz afirmação de José Miguel Wisnik de que Winnicott seria o Gilberto Gil da psicanálise), não se preocupa em responder o que é isso que ele enxerga como vida – o importante é perguntar o que ela é.
Podemos observar que, para Winnicott, existem diferentes sentidos de realidade na experiência da vida em si mesma. E ele dá especial atenção para o sentido de realidade próprio ao brincar e da experiência da criatividade. O espaço potencial, a transicionalidade, inscreve um terceiro sentido da realidade que não é nem interno (subjetivo), nem externo (objetivo), mas está entre, de onde experimentamos a realidade dos objetos transicionais. Winnicott não apresenta dessa maneira, mas podemos inferir que existe uma misteriosa preservação da vitalidade quando operamos com o sentido da realidade compartilhada. Ocorre, como um encontro potencializador de vida, uma “trégua” do embate da nossa vitalidade com a realidade externa.
O brincar para Winnicott, e toda a área dos fenômenos e objetos transicionais, apresenta tanto a sua força quanto a sua precariedade, advindas do mesmo lugar: a confusão entre o que é subjetivo e o que é objetivamente percebido. Isso acontece de forma radicalizada em experiências de intenso sofrimento na forma de delírios e alucinações, como também na experiência de baixa intensidade psíquica do brincar e da criatividade. O brincar, a criatividade, é como um “descanso na loucura” – para usar a bela formulação de Guimarães Rosa – que garante o sonhar acordado do mesmo modo que o sonho garante o sono.
Phillips chama a atenção para a expressão utilizada por Winnicott neste trecho. Winnicott diz: “essa é a precariedade da própria da magia, magia que surge na intimidade, numa relação que se revela confiável”. Phillips nos convida a pensar no uso que Winnicott faz da palavra (ao lado da ilusão) “magia”, como o que ele denominou “possibilidade intensificadora de vida”. A magia é a relação que acontece com intimidade e confiança produzindo “um senso de possibilidade que intensifica a vida”; Ainda segundo Phillips, a psicanálise deve estar sempre comprometida com as possibilidades intensificadoras da vida.
A questão para Winnicott é encaminhada da mesma forma que a questão de saber se a vida presta: ajudar o paciente a encontrar suas próprias possibilidades intensificadoras de mais vida e não de menos vida. A vida aqui entendida talvez como a transformação da vitalidade nos diferentes sentidos de relação com a realidade: o sentido subjetivo, objetivo ou transicional. Não se trata de fazer parecer que o analista faz uma espécie de torcida ingênua da vida, a qualquer custo. A torcida é, quem sabe, pró-vitalidade – para ser mais justa com os winnicottianos.
O problema da vitalidade foi investigado por outro caminho em Um brinde aos mortos: Histórias daqueles que ficam de Vinciane Despret. A filosofa belga lida neste livro com o grande problema da vida, que é a morte e as possibilidades intensificadoras da presença ou ausência do morto na cultura. Em defesa de uma espécie de antitrabalho de luto que dê mais e não menos vida ao morto, Despret se debruça sobre os ritos, as superstições, e uma série de práticas que consistem em dar mais vida ao morto. Para a vida, aqui, parece não haver contrários; trata-se de diferentes graus de intensificação da presença.
Neste contexto, o trabalho de Despret me fez recordar uma recomendação que Freud costumava fazer ao dizer que a gente não manda um fantasma embora sem perguntar a que ele veio. E sou testemunha de um monte de gente que perdeu pessoas e que gostaria muito que elas tivessem se tornado, ao menos, fantasmas. Perderam para sempre pessoas que se presentificam como um lugar esvaziado, antifantasmático.
Não perderam só pessoas, perderam vínculos, um certo modo de aconchegar o corpo, um olhar irrecuperável na imprecisão da memória. Perderam quem elas eram quando essas pessoas estavam ali. Acham que nunca mais serão as mesmas porque o objeto não está mais lá. Tem dia que até sentem que são elas mesmas que foram embora. Se tivessem podido inventar/encontrar um fantasma estariam, sem dúvida, bem melhores.
A ideia de uma pobreza fantasmática na melancolia como resultado de um trabalho de luto impossível foi uma discriminação fundamental entre o processo de luto e a melancolia em Freud. A sombra do objeto perdido que recai sobre o si mesmo é aquela que não encontra meios de fantasmatizar a perda, de dar continuidade à presença na ausência, de simbolizar ainda que de forma rudimentar. Construir os fantasmas é um modo de dar mais ou menos vida aos mortos e, no limite, a nós mesmos.
“Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”: a terceira margem do rio e o espaço transicional.
Como era de se esperar, Winnicott também se interessou pela morte em um sentido particular: a morte como um lugar de “não-ser” estando vivo. Talvez o único lugar a partir do qual a morte pode se tornar uma experiência para o indivíduo. E é aqui que a provocação de José Miguel Wisnik sobre “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, como a imagem literária do espaço potencial, se torna muito fina e precisa.
O pai que habita a precariedade de uma canoa, nem lá, nem cá, está na terceira margem do rio, na transicionalidade. Manter-se vivo, nesse sentido, é dar conta de encarnar a vida nessa precariedade pelo tempo que for necessário, como forma de permanência radical. Sem a suposição do esforço alucinado de quem fica, para garantir a presença do pai, perderíamos em vida e em ficção.
Wisnik produz, por meio da aproximação de Winnicott com a literatura e a música brasileira, um deslocamento do espaço transicional de uma abstração teórica à própria experiência cultural. O reconhecimento das ambiguidades sem resolução próprias à nossa cultura, da familiaridade com o inacabado e os modos “mágicos” de presença em articulação ao espaço transicional, encarnam criativamente a teoria do psicanalista inglês à nossa cultura. Ab’Sáber, na mesma direção, reconhece como a calorosa recepção da obra de Winnicott no Brasil está articulada à familiaridade que nós temos com a precariedade – e a potência – de não sermos uma coisa nem outra.
*
Nota: Este texto nasce das reflexões suscitadas pela celebração dos 130 anos de Donald Winnicott, organizada pela editora Ubu, em São Paulo, e dialoga com as intervenções do professor José Miguel Wisnik, do psicanalista Tales Ab’Sáber e da profa. Tania Rivera.