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domingo, maio 3, 2026

Michel Laub: “É um ensaio sobre coisas que me afligem pessoalmente” – Revista Cult

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“Qual o impacto de um livro confessional diante de um mercado onipresente, que uniformiza a particularidade – a dissidência que poderia vir dela – para seguir explorando, poluindo, concentrando renda, precarizando o trabalho?”. Essa é uma pergunta central em Verão na névoa, novo livro de Michel Laub, que chega às livrarias no dia 27 de abril pela Companhia das Letras. Entre memória pessoal e reflexão crítica sobre literatura, política e cultura, o autor constrói uma narrativa em que a escrita aparece como tentativa de compreender – e atravessar – crises existenciais.

Após dez livros publicados, entre eles o premiado romance Diário da queda (Companhia das Letras, 2011), o escritor gaúcho radicado em São Paulo desenvolve uma espécie de ensaio cultural e autobiografia. Ao revisitar episódios de sua própria vida, Laub articula memórias com reflexões sobre a trajetória do cantor e compositor Renato Russo e a obra do sul-africano J. M. Coetzee, explorando diferentes maneiras de transformar a experiência pessoal em linguagem literária.

O resultado é um livro – guiado “pelo conceito de verdade”, confessional, mas “um ensaio também”, afirma Laub em entrevista à Cult – que investiga a intimidade do autor, tratando de coisas que o “afligem pessoalmente”. Ao mesmo tempo, os elementos particulares apresentados em Verão na névoa “têm ressonâncias maiores”: ao debater o lugar do escritor contemporâneo.

Na entrevista a seguir, Laub fala sobre o caráter terapêutico da escrita, os limites entre confissão e elaboração literária, e o desafio de produzir uma narrativa pessoal em um contexto no qual, segundo ele, esse tipo de voz encontra cada vez menos espaço de escuta e visibilidade.

 

Verão na névoa pode ser considerado um ensaio autobiográfico?

Tudo que está ali se guia pelo conceito de verdade, com um ou outro ajuste para preservar a intimidade de outras pessoas ou para tornar a narrativa mais coerente, quem sabe mais interessante. Mas não acho que o livro seja só uma confissão, porque isso sozinho não seguraria o projeto. É um ensaio também, que a partir do ponto de vista individual tem ressonâncias maiores – o lugar de um escritor com o meu perfil no mundo de hoje, por exemplo, abrangendo aí questões públicas, da política e da cultura.

No livro, você relata experiências pessoais e íntimas. O que motivou a decisão de tornar essas vivências públicas, e como você lida com esse nível de exposição?

Inicialmente foi algo terapêutico mesmo. Comecei a escrever enquanto a história estava acontecendo ainda, conforme digo no livro. Falar sobre um problema é uma forma de lidar com ele, isso é uma crença que acho correta na psicanálise e se estende à prosa literária. O processo de se expor talvez tenha algo a ver com isso, ou com o fato de eu ser escritor e, depois que tomei essa decisão profissional e pessoal lá atrás, nunca mais ter parado de me colocar nos livros. Toda a ficção que escrevi traz algo meu, no mínimo uma questão interna que me incomoda, mesmo que isso não necessariamente vá virar um tema, um elemento visível na trama.

Ao tratar da doença e da morte de Renato Russo, você reflete sobre o silêncio, a exposição e o direito à privacidade. Como esse tema influenciou suas próprias escolhas sobre o que revelar ou preservar no livro?

A resposta mais óbvia é que a história dele acabou presente no livro. Essa história sempre teve a ver com exposição, com a expressão de questões íntimas numa obra artística. É algo que aprendi a admirar como fã, então falar a respeito é uma maneira de tentar entender como vejo a arte e os artistas, e portanto como me vejo – o que vai incluir aspectos mais concretos da minha biografia. Quanto à privacidade, o fato de o Renato Russo estar morto há tanto tempo dá uma liberdade maior para se escrever sobre a vida dele. Procurei não inventar nada, apenas fiz ilações (e sempre em forma de perguntas) a partir do que ele mesmo dizia, de testemunhos de pessoas que conviveram com ele.

De que forma a aproximação entre duas figuras tão distintas, como Renato Russo e Coetzee, mas que você trata como complementares ao longo do livro, ajuda a pensar a sua própria maneira de escrever e de lidar com a experiência pessoal?

Eu usei os dois para falar de mim, então posso responder pensando no meu próprio caso. Renato Russo tem uma forma mais direta, emocionada, de transformar a experiência pessoal em obra artística. Coetzee tem uma forma mais sinuosa, irônica. No livro eu trato essas duas formas como extremos, e ambas de algum modo estão presentes na maneira como escrevo – e, logo, como sou. Mais especificamente, no texto também entro no mérito dos assuntos tratados por ambos: Renato com a questão das drogas, dos impulsos autodestrutivos, e Coetzee com a discussão sobre como dizer algo pessoal, que não seja apenas um exercício egóico, num contexto político em que esse tipo de narrativa é cada vez menos ouvido.

Por que você optou pelo uso da terceira pessoa para narrar as suas experiências? A ideia era criar um distanciamento em relação à própria experiência?

Tem um lado técnico, de diferenciar trechos mais narrativos de trechos mais reflexivos, e isso dá certo ritmo ao conjunto, e tem um lado pessoal que vai além da paródia. Usei o que parece ter sido a estratégia do Coetzee, justamente usando a terceira pessoa, para quebrar inibições nos livros autobiográficos que ele escreveu. Acho que questões estilísticas e verdade se confundem em qualquer texto desse tipo. Não é à toa que escolhi uma epígrafe da Susan Sontag, que é um comentário sobre estilo: “A máscara é o rosto”. Por mais dolorosa que seja a história que um escritor conta, tenha ela acontecido numa guerra ou num hotel de luxo, tudo é sempre mediado, organizado de determinada maneira para transmitir com maior fidelidade aquilo que ele deseja.

Lendo o livro, pode-se entender o título Verão na névoa como uma espécie de tensão entre dois movimentos do livro: o “verão”, em referência a obra de Coetzee, como momento retrospectivo da vida e da escrita, e a “névoa” como a experiência mais presente de incerteza, melancolia e dificuldade de orientação existencial. Fiquei com a impressão de que a escrita aparece justamente como tentativa de atravessar essa névoa a partir da memória e do diálogo com outros autores e com o próprio passado. Faz sentido pensar o título por esse caminho?

A escrita tem um pouco esse lado terapêutico, como falei antes. A psicanálise também trabalha com narrativas, a gente fala do que nos aflige criando histórias, personagens que simbolizam desconfortos no fundo abstratos. Claro que não é a mesma coisa que escrever ficção, porque a ficção tem uma liberdade maior de forma, e não precisa ter um compromisso com a mudança, com a melhora. Por ser um livro de não-ficção, acho que o Verão na névoa fica um pouco entre as duas coisas. Eu tento ordenar a linguagem, a narrativa, para dar um sentido a algo meio difuso que eu sentia na época que estava escrevendo, isso que você chama de desorientação existencial e pode ser resumido na metáfora da névoa. Ao mesmo tempo, e a parte toda sobre a ayahuasca fala disso, a linguagem nem sempre é suficiente para dar conta – ela nem sempre tem 100% de sucesso terapêutico, vide as pessoas que não conseguem sair do lugar depois de anos frequentando um consultório. Tem algo mais abstrato, mais misterioso, na forma como se pode lidar (como eu percebi que podia lidar) com a névoa. Nesse sentido, o capítulo final é quase um rascunho, as coisas não chegam a se fechar narrativamente. Isso talvez seja a verdadeira exposição pessoal do livro: quem lê pode chegar a conclusões que vão além do que está no texto, da minha capacidade de enxergar essas coisas todas com clareza porque estou envolvido demais com elas. É algo que preciso aceitar quando decido publicar um livro assim.

“Um dia talvez eu escreva sobre a beleza e a graça do passado e do presente. Talvez eu descubra que a angústia e a tristeza são bengalas narrativas, e desista de ver nelas mais apelos que os da felicidade” – você poderia comentar um pouco sobre esse trecho, e como ele se relaciona com o momento do livro em que aparece?

Isso faz parte dessa indefinição pessoal. Eu gostaria muito de conseguir escrever esse tipo de livro, seria uma experiência diferente da que tive até hoje, e isso é sempre enriquecedor. Mas vou conseguir? É uma pergunta que decorre de outra: vou conseguir sair da melancolia narrada no livro? Uma resposta otimista diria que só o fato de ter escrito o livro, e de ter aceitado os efeitos de publicá-lo, já é uma tentativa de sair do lugar.



[Fonte Original]

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