Semanas de conflito agravaram os problemas econômicos do Irã, aumentando o risco de calamidade no pós-guerra, mas a República Islâmica parece capaz de sustentar, por enquanto, um impasse no Golfo Pérsico, apesar de um bloqueio naval dos Estados Unidos que paralisou as exportações iranianas de energia.
Com os combates de grande escala suspensos por uma trégua em 8 de abril, o Irã permanece em um impasse com os EUA e Israel, enquanto as negociações por um cessar-fogo duradouro estão travadas. Teerã mantém o Estreito de Ormuz fechado, e Washington bloqueia os portos iranianos no Golfo.
Apesar dos danos significativos à infraestrutura e à indústria, e da pressão sobre as exportações de petróleo, o Irã conta com abundantes suprimentos internos, comércio estável com países vizinhos e poucos sinais imediatos de estresse decorrente da perda de receitas estatais causada pelo bloqueio.
Se o presidente dos EUA, Donald Trump, espera que o Irã ceda primeiro nesse jogo de pressão econômica, em meio à alta da inflação global e à proximidade das eleições de meio de mandato, pode ter de esperar.
“Acho que eles calcularam um fôlego maior do que economistas ou formuladores de políticas no Ocidente estão antecipando”, disse Sanam Vakil, chefe do programa para o Oriente Médio do centro de pesquisas Chatham House, em Londres, referindo-se à liderança iraniana.
Diante do que consideram uma ameaça existencial à República Islâmica, os clérigos no poder e a Guarda Revolucionária têm condições de usar seu controle rígido sobre o país para resistir até alcançar um acordo sustentável com Washington, afirmou Vakil.
“Eles são conhecidos por usar sua capacidade repressiva. Estão contando com a população usando suas economias”, disse ela, acrescentando que Teerã recorre à sua estratégia de “economia de resistência”, baseada em recursos internos e comércio por fronteiras terrestres.
A extensão dos danos econômicos causados pela guerra e a probabilidade de uma crise iminente é difícil de avaliar, devido à falta de dados oficiais confiáveis e a um apagão parcial da internet desde janeiro.
Ainda assim, a Reuters informou, neste mês, que a situação é tão grave que autoridades iranianas temem novas ondas de protestos, e que o país pode enfrentar um desastre caso as sanções não sejam suspensas.
Vakil disse esperar uma queda de dois dígitos no PIB do Irã neste ano. O rial, que caiu 70% no ano passado, agravando a inflação que contribuiu para protestos em massa em janeiro , recuou mais 15% nos últimos dias, mas, após certa estabilização em março, não está muito distante do nível pré-guerra.
Há poucos outros sinais de estresse fiscal imediato. As autoridades não restringiram saques bancários, não racionaram combustíveis ou alimentos básicos, nem atrasaram o pagamento de salários do setor público. As prateleiras dos supermercados permanecem abastecidas, e escritórios e bancos continuam abertos.
Dados de transporte marítimo entre 13 e 25 de abril mostram que apenas cerca de 300 mil barris de petróleo por dia foram enviados ao Oceano Índico, de mais de 1 milhão de barris diários carregados em petroleiros no período. A capacidade de armazenamento é limitada, mas analistas acreditam que o Irã pode manter a produção por mais dois meses antes de precisar reduzi-la.
O país acumulou receitas extras com vendas de energia quando sanções foram temporariamente suspensas no início da guerra. Volumes limitados de petróleo continuam sendo transportados por terra, mas insuficientes para substituir as rotas marítimas bloqueadas.
Uma fonte sênior do Banco Central do Irã disse à Reuters que o país possui reservas significativas de ouro — “toneladas” — que poderiam ser utilizadas se necessário, e que, após décadas driblando sanções, Teerã sabe como manter as importações mesmo pagando um pouco mais.
“O Irã é o maior importador de alimentos da região. Mas também é importante notar que é o país com menor insegurança alimentar na região”, disse Ishan Bahnu, analista-chefe de commodities agrícolas da Kpler.
Com uma colheita melhor que o normal prevista, a necessidade de importações de trigo diminui, reduzindo a vulnerabilidade a uma eventual ampliação do bloqueio marítimo para cargas de grãos e adiando parte do uso de reservas em moeda estrangeira, afirmou Bahnu.
O bloqueio dos EUA até agora tem se limitado aos portos do Golfo, não atingindo Chabahar, no Mar Arábico, e tem focado em petroleiros, acrescentou Bahnu, citando monitoramento de embarcações.
Autoridades na Turquia, Iraque e Paquistão disseram à Reuters que não há indícios de queda no comércio transfronteiriço até o momento. A Rússia também ampliou o comércio pelo Mar Cáspio neste ano, enviando 500 mil toneladas de milho, 180 mil toneladas de cevada e 4 mil toneladas de trigo entre janeiro e março, contornando os portos do Golfo bloqueados, segundo dados do Ministério da Agricultura russo.
À medida que as ameaças de ação militar por parte de Trump aumentaram em janeiro, o Irã intensificou as importações para estocar seis meses de bens essenciais, disse neste mês à mídia estatal Mohammad Javad Asgari, chefe da comissão de agricultura do Parlamento.
Logo após o início do conflito, o Banco Central lançou um pacote de apoio que isenta penalidades por atraso no pagamento de pequenos empréstimos e elevou os limites de saque bancário para tranquilizar depositantes.
Ainda assim, nas ruas de Teerã, o impacto econômico é severo. Empresas iranianas foram pressionadas por preços elevados, interrupções nas cadeias de suprimento e o apagão da internet, provocando aumento do desemprego.
“O aumento dos preços de bens básicos, especialmente produtos como os nossos, diretamente ligados à alimentação das pessoas, certamente pressiona a população”, disse Abbas Smaeelzade, vendedor de arroz e grãos. Ele estima que suas vendas caíram cerca de 40% desde o início da guerra.
O mecânico Hossein Amiri afirmou que muito menos clientes estão levando carros à sua oficina em comparação ao período anterior ao conflito. “Nosso negócio praticamente parou”, disse, alertando que a situação pode piorar bastante.
Sobre as autoridades pesa o temor de uma nova onda de protestos em massa. A agitação de janeiro só foi contida após a morte de milhares de manifestantes, no episódio mais sangrento em décadas.
Para evitar um desastre econômico iminente, o Irã precisaria incluir o alívio de sanções em qualquer acordo com Washington, disse Vakil. “Eles precisam de acesso às suas reservas em moeda estrangeira no exterior, mantidas em bancos ao redor do mundo, mas também de algum nível de alívio de sanções. Precisam ampliar as vendas de petróleo e também conseguir comerciar adequadamente”, afirmou.