A Hyperliquid entrou de vez no radar de Wall Street em maio. Depois de uma sequência de novas máximas, expansão para ativos tradicionais e aumento do interesse institucional, a plataforma descentralizada de derivativos foi citada por Jeffrey Sprecher, fundador e CEO da Intercontinental Exchange (ICE), dona da Bolsa de Nova York, como um fenômeno grande demais para ser ignorado.
“Essa Hyperliquid de que estamos falando, se você ainda não ouviu falar, é maior que a Nasdaq”, disse Sprecher durante conferência da Bernstein nesta semana. A comparação não se sustenta pelo valor de mercado — o token HYPE vale cerca de US$ 15 bilhões, contra aproximadamente US$ 50 bilhões da Nasdaq —, mas reflete a força que a plataforma ganhou no mercado de futuros perpétuos descentralizados.
O comentário ajudou a coroar um mês decisivo para a Hyperliquid. O token HYPE acumula alta de cerca de 68% em maio e opera praticamente em sua máxima histórica, de US$ 67,17. A valorização ocorre em meio a uma combinação de fatores: crescimento dos volumes, avanço sobre ativos do mundo real, entrada de investidores em ETFs ligados ao token, parceria com Coinbase e Circle, contratos pré-IPO e até exposição sintética ao Ibovespa.
A Hyperliquid concentra mais de 70% do mercado descentralizado de futuros perpétuos, com bilhões de dólares em volume diário. A plataforma ganhou notoriedade inicialmente por oferecer perps de criptoativos, mas passou a ser vista em maio como algo maior: uma infraestrutura capaz de competir com bolsas tradicionais em produtos que vão de petróleo a ações tokenizadas.
Sprecher afirmou que a ICE começou a prestar atenção na Hyperliquid em parte porque a plataforma estava negociando derivativos de petróleo durante fins de semana, quando os mercados tradicionais de energia da ICE estavam fechados. Esse tipo de negociação ganhou relevância durante o aumento das tensões no Oriente Médio, quando investidores buscaram exposição fora do horário convencional das bolsas.
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“Há muita atividade que acontece, muitas decisões e coisas acontecem no fim de semana. Então isso tem atraído muito interesse”, disse o executivo.
A fala reforça uma mudança de percepção em torno da Hyperliquid. A plataforma deixou de ser vista apenas como uma exchange descentralizada de criptoativos e passou a ser observada por operadores tradicionais como uma possível ameaça ou inspiração para o futuro dos mercados globais.
De perps cripto a “exchange de tudo”
Boa parte da euforia de maio veio da expansão dos mercados HIP-3, estrutura que permite que terceiros criem contratos perpétuos na Hyperliquid. Esses mercados abriram espaço para produtos ligados a ações, commodities, câmbio, empresas pré-IPO e ativos tradicionais.
Um dos destaques foi o avanço dos contratos de empresas privadas de tecnologia antes de seus IPOs, como SpaceX, Anthropic e OpenAI. A tese é que a Hyperliquid permite a investidores de varejo acessar, de forma sintética, exposições que antes ficavam restritas a fundos, investidores institucionais ou mercados secundários privados.
A Hyperliquid foi uma das grandes beneficiadas pelo aquecimento dos mercados pré-IPO, especialmente diante da expectativa por futuras listagens de gigantes de tecnologia. O ecossistema HIP-3 processou mais de US$ 120 bilhões em volume desde seu lançamento.
Outro passo simbólico foi o lançamento do contrato perpétuo sintético de Ibovespa, o “IBOV-USDC”. O produto permite negociar exposição ao principal índice da B3 com liquidação em USDC e alavancagem de até 20 vezes. Embora não represente a compra direta das ações do Ibovespa, o contrato mostra a ambição da Hyperliquid de levar ativos de mercados nacionais para uma infraestrutura global e on-chain.
A FalconX também apontou que a Hyperliquid está se tornando concorrente de bolsas tradicionais e mercados de previsão. A plataforma passou a avançar sobre ações tokenizadas, commodities, moedas, contratos pré-IPO e mercados de eventos, aproximando-se de áreas ocupadas por empresas como CME, Kalshi e Polymarket.
Esse avanço explica por que a comparação feita por Sprecher chamou tanta atenção. A Hyperliquid ainda é muito menor que a Nasdaq em métricas tradicionais de valor, regulação e presença institucional. Mas, em certos nichos de negociação contínua e derivativos on-chain, já se tornou grande o suficiente para incomodar gigantes.
ETFs, USDC e pressão regulatória
O mês também foi marcado por sinais de demanda institucional. ETFs à vista de HYPE lançados por 21Shares e Bitwise tiveram fortes entradas logo nos primeiros pregões. Em uma semana em que ETFs de Bitcoin registraram saídas bilionárias, os fundos ligados à Hyperliquid somaram entradas relevantes, reforçando o apetite por exposição ao ecossistema.
Outro ponto importante foi a parceria da Hyperliquid com Coinbase e Circle para transformar o USDC em ativo de cotação alinhado dentro da plataforma. Analistas estimam que a Hyperliquid poderá capturar parte significativa dos rendimentos das reservas em USDC depositadas no protocolo, criando uma nova fonte de receita além das taxas de negociação.
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Segundo estimativas, a estrutura poderia gerar entre US$ 135 milhões e US$ 160 milhões por ano em receita, podendo chegar a US$ 300 milhões a US$ 500 milhões caso os depósitos continuem crescendo. Para analistas, esse acordo pode mudar o modelo de negócios da plataforma, porque faz a receita crescer não apenas com o volume de trades, mas também com o tamanho dos depósitos.
A Hyperliquid também vem se destacando pela geração de taxas. A plataforma arrecadou US$ 255 milhões em receita acumulada no ano e se tornou uma das principais geradoras de taxas do mercado cripto. Parte relevante desse valor é revertida ao token HYPE por meio de recompras automatizadas, mecanismo que ajuda a sustentar a narrativa positiva em torno do ativo.
O crescimento, porém, também atrai escrutínio. CME e ICE já demonstraram preocupação com possíveis riscos de manipulação em mercados descentralizados de derivativos, especialmente quando esses produtos passam a tocar ativos como commodities e índices tradicionais. Sprecher afirmou que espera respostas regulatórias mais claras nos próximos meses, com duas possibilidades: a criação de uma nova categoria regulada para futuros perpétuos ou a tentativa de enquadrar plataformas offshore nas regras já existentes nos Estados Unidos e na Europa.
Esse debate é central para o futuro da Hyperliquid. A plataforma se beneficia justamente de operar de forma global, contínua e fora das estruturas tradicionais de bolsa. Mas quanto mais se aproxima de mercados como petróleo, ações, pré-IPOs e índices, maior tende a ser a pressão para que reguladores definam quais regras se aplicam.