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terça-feira, junho 23, 2026

Como a Cultura Negra do Surfe Inspirou o Desfile da Louis Vuitton SS27

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O convite para a coleção da Louis Vuitton apresentada na terça-feira (23), durante a Semana de Moda de Paris, trazia uma prancha de surfe estampada. Dias antes do desfile, o diretor criativo da marca, Pharrell Williams, havia publicado em suas redes sociais um vídeo que celebrava o oceano e a cultura do surfe. O tema da coleção estava anunciado.

Mas, no universo criativo de Pharrell, nada é apenas o que parece. O surfe não é apenas um esporte, e o mar não é apenas um cenário. Para ele, ambos funcionam como ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre identidade e cultura. Com o teaser, ele direcionava a atenção para as comunidades costeiras. Especialmente para a história do Ebony Beach Club, projeto idealizado em 1957 por um empresário negro americano que sonhava criar um sofisticado destino à beira-mar onde famílias negras pudessem se reunir e socializar.

Getty ImagesPranchas da Louis Vuitton apareceram na passarela

Embora tenha atraído cerca de 2 mil adesões, incluindo personalidades como o músico Nat King Cole, o clube teve a área desapropriada e nunca saiu do papel. Décadas depois, o Ebony Beach Club ressurge em um projeto liderado pelo californiano Brick Howze, 29, responsável pela narração e direção do vídeo da Louis Vuitton.

Reprodução/InstagramA passarela do desfile da Louis Vuitton, em formato de onda

Dias antes de ocupar um lugar em um dos desfiles mais disputados da temporada, Howze conversou com a Forbes sobre cultura negra de praia, luxo e a experiência de colaborar com uma das mais influentes casas de moda do mundo. Confira a seguir:

Como o surfe entrou na sua vida?

Sempre fui uma pessoa ligada à água. Comecei a nadar aos 3 anos de idade e sou do signo de Peixes, se isso significar alguma coisa. Durante a pandemia, o surfe se tornou uma forma de liberdade e meditação. Sempre fui uma pessoa curiosa, e em 2020 essa curiosidade me levou ao oceano.

O Ebony Beach Club foi originalmente idealizado como um elegante clube de praia para a comunidade negra da Califórnia. Quem foi o fundador e o que aconteceu?

O Ebony Beach Club foi fundado por Silas White em 1957. A visão dele era criar um sofisticado destino à beira-mar onde famílias negras pudessem socializar e desfrutar da costa da Califórnia em uma época em que o acesso e a inclusão ainda eram profundamente limitados. O projeto foi aprovado e celebrado pela comunidade, mas, antes que pudesse ser concretizado, o terreno foi desapropriado pelo governo. O clube nunca chegou a abrir suas portas.

Reprodução/InstagramBrick Howze é DJ e fundador do Ebony Beach Club, um clube de cultura negra de praia

Quando conheceu a história de Silas White e do projeto original do Ebony Beach Club, de 1957, qual foi sua reação?

Incredulidade. Eu não conseguia entender como uma parte tão importante da história da Califórnia havia sido amplamente esquecida. O apagamento das nossas histórias de empreendedorismo como negros americanos aconteceu de forma deliberada.

Conhecer a história de Silas White me ajudou a entender que aquilo que estávamos construindo não era uma ideia nova. Estávamos retomando algo que outra pessoa havia sido forçada a interromper.

A versão contemporânea do Ebony Beach Club aspira a se tornar uma solução para nossa comunidade e, em última instância, mudar a trajetória da relação dos negros americanos com a praia, o surfe e os espaços aquáticos.

Acervo do Museu de História de Santa Monica, Acervo da Família GilmoreO prédio original do Ebony Beach Club em Santa Monica, em 1957

Durante décadas, a cultura praiana da Califórnia foi retratada predominantemente como um espaço branco. Quais barreiras culturais e simbólicas ainda precisam ser quebradas para tornar a praia um espaço mais inclusivo?

A representatividade é uma parte enorme disso. Muitas pessoas presumem que o acesso depende apenas da geografia, mas a cultura é igualmente importante. Se você nunca se vê representado na mídia do surfe, nas marcas ligadas à praia ou em posições de liderança, torna-se fácil acreditar que esses espaços não foram criados para você.

A boa notícia é que estamos vendo essa realidade mudar. Surfistas, fotógrafos, cineastas, atletas e empreendedores mais diversos estão ajudando a remodelar essa narrativa. O objetivo não é substituir uma cultura por outra, mas fazer com que a praia pareça pertencer a todos.

Em uma época em que tantas marcas tentam construir comunidades, o que torna uma comunidade verdadeiramente autêntica como você fez com o Ebony Beach Club?

Comunidades autênticas são construídas em torno do serviço, e não do marketing. Muitas organizações começam perguntando como podem aumentar sua audiência. Nós começamos perguntando como poderíamos gerar valor. Ensinamos surfe e natação, organizamos encontros, torneios, criamos oportunidades e estamos presentes de forma consistente.

Comunidade não é algo que se fabrica. É algo que se conquista por meio da confiança, de experiências compartilhadas e de relacionamentos genuínos ao longo do tempo.

Você criou o vídeo teaser da nova coleção de verão masculino da Louis Vuitton, apresentada por Pharrell Williams. Como surgiu essa conexão e o que isso significa para você?

Há anos estamos trabalhando para valorizar a história de comunidades que muitas vezes foram ignoradas. Ver esses esforços reconhecidos em uma plataforma global por alguém como Pharrell Williams e pela Louis Vuitton é muito gratificante.

O que mais significa para mim é que essa oportunidade surgiu por meio da conexão com Pharrell ao prestarmos serviço à organização sem fins lucrativos dele em sua cidade natal, Virginia Beach. Organizamos aulas de surfe e ensinamos às crianças do Yellow Project a história das praias locais.

É uma lembrança de que movimentos culturais autênticos podem repercutir muito além das comunidades onde começaram. Essa plataforma é um veículo para contar nossa história.

Getty ImagesPharrell Williams no desfile desta terça (23)

Qual é a importância de pessoas negras como Pharrell ocuparem posições criativas de destaque em empresas de bens de luxo?

A representatividade importa, mas a influência importa ainda mais. Quando criativos negros ocupam posições de liderança, eles trazem novas perspectivas, referências e histórias para instituições que historicamente os ignoraram. Isso amplia quem é visto, quem é contratado, quais histórias são celebradas e quais ideias moldam o futuro. O impacto vai muito além da moda.

Historicamente, o luxo tem sido associado à exclusividade e ao acesso restrito. O Ebony Beach Club parece oferecer uma perspectiva baseada em pertencimento. O que significa luxo para você hoje?

Para mim, luxo é liberdade. É ter acesso a experiências que alimentam o espírito. É poder passar tempo com sua comunidade, sua família, viajar, criar, aprender e se conectar com a natureza.

Alguns dos momentos mais luxuosos da minha vida aconteceram no oceano, ao nascer do sol, ao lado de pessoas que amo. Luxo nem sempre tem a ver com aquilo que você possui. Às vezes, tem a ver com aquilo a que você tem acesso e com a forma como se sente quando está lá. O oceano é um luxo.

Como o surfe e a cultura praiana se relacionam com o luxo?

O oceano sempre representou algo aspiracional. Acredito que o luxo também possa ser aspiracional. Todos nós buscamos uma sensação. Alguns de nós encontramos essa sensação no azul profundo do mar.

Silas White queria criar, em 1957, um espaço elegante de pertencimento para a comunidade negra. Quase setenta anos depois, com esse trabalho para a Louis Vuitton, você considera sua missão concluída?

Nem de longe. Ser reconhecido por uma marca global é um marco incrível e uma porta de entrada para o futuro. Mas ainda há muito trabalho a ser feito. O Ebony Beach Club é um projeto para mais de 100 anos. Tenho inúmeras aspirações para expandir aquilo que as futuras gerações de crianças como eu podem imaginar para si mesmas.

Quando uma criança negra puder caminhar por qualquer praia dos Estados Unidos e sentir, sem questionamentos, que pertence àquele lugar, estaremos muito mais próximos da linha de chegada. Até lá, ainda há trabalho a ser feito.



[Fonte Original]

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