Crédito, Bloomberg via Getty Images
- Author, Luis Barrucho
- Role, Serviço Mundial da BBC
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Ele é descrito como um “acordo de cooperação nuclear pacífica” que proporcionará “grande acesso para empresas americanas ao programa de energia nuclear da Arábia Saudita”, segundo o Departamento de Energia dos EUA.
A Arábia Saudita desenvolverá um programa nuclear civil nos termos do acordo, cujo texto integral não foi divulgado. O urânio enriquecido pode ser usado como combustível para usinas nucleares, mas também para a fabricação de bombas nucleares.
Especialistas afirmam que existe o risco de futura proliferação nuclear em uma região já instável.
A questão nuclear tem estado no centro do conflito entre os EUA e Israel com o Irã, que já dura meses. As duas nações afirmam que uma das razões pelas quais atacaram o Irã foi para impedir que o país desenvolvesse uma arma nuclear — algo que Teerã nega ter planos de fazer.
Será permitido aos sauditas enriquecer urânio?
Se as notícias veiculadas pela mídia americana forem confirmadas, o acordo nuclear com a Arábia Saudita será uma rara exceção.
Os Estados Unidos possuem o que denominam “acordos de cooperação nuclear pacífica” com cerca de 50 países, segundo o Departamento de Energia americano. Tais acordos permitem a transferência de materiais nucleares, incluindo combustível, reatores e tecnologia, bem como pesquisas conjuntas.
Mas até então, apenas dois países — a Índia e o Japão — tinham permissão para enriquecer urânio localmente, um processo crucial na produção de combustível nuclear, mas também de armas nucleares.
As outras nações precisam importar combustível nuclear e também estão proibidas de reprocessar o combustível nuclear usado em reatores para geração de energia. Essa técnica permite recuperar material nuclear utilizável, como plutônio e urânio.
Entre os muitos países impedidos de fazê-lo estão os Emirados Árabes Unidos (EAU), vizinhos da Arábia Saudita.
Rosemary Kelanic, diretora do programa para o Oriente Médio do centro de estudos Defense Priorities, com sede nos EUA, afirmou que seria “bastante chocante” se o acordo incluísse a permissão dos EUA para que a Arábia Saudita tivesse instalações para enriquecer urânio.
“Os EUA nunca fizeram isso antes, nunca ajudamos outro país a enriquecer combustível nuclear em seu próprio território”, disse ela, acrescentando que o motivo é que “se você consegue produzir seu próprio combustível nuclear, você se torna um risco muito maior” para a construção de armas nucleares.

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O que é urânio enriquecido?
O urânio é um elemento natural encontrado na crosta terrestre.
É composto principalmente por dois isótopos: U-238 e U-235.
Mais de 99% do urânio natural é U-238, que não sustenta facilmente uma reação nuclear em cadeia. Apenas cerca de 0,7% é U-235, um isótopo que pode ser facilmente dividido, liberando energia em um processo conhecido como fissão nuclear.
Para tornar o urânio útil, a proporção de U-235 tem que ser aumentada por meio de um processo chamado enriquecimento.
Primeiro, o urânio é convertido em gás. Esse gás é então alimentado em centrífugas — máquinas que giram a velocidades extremamente altas.
À medida que giram, o U-238, mais pesado, move-se ligeiramente para fora, enquanto o U-235, mais leve, permanece mais próximo do centro.
Isso permite que o U-235 — a forma mais rara e útil de urânio — seja gradualmente separado do U-238, mais comum.
Esse urânio mais concentrado é extraído por uma das extremidades da centrífuga.

Qual a diferença entre o urânio usado em reatores nucleares e o urânio usado em armas?
Os diferentes níveis de enriquecimento tornam o urânio adequado para uma variedade de usos.
O urânio pouco enriquecido, que normalmente contém de 3% a 5% de U-235, é usado como combustível em usinas nucleares comerciais. Essa quantidade é suficiente para sustentar uma reação em cadeia controlada, mas está muito abaixo dos níveis necessários para uma arma nuclear.
O urânio altamente enriquecido, com níveis de 20% ou mais, pode ser usado em reatores de pesquisa, e o urânio de grau militar geralmente é enriquecido a cerca de 90%.
Nessa concentração, as condições são ideais para que uma reação nuclear saia do controle quase instantaneamente. Quando uma quantidade suficiente desse material é reunida, os átomos começam a se dividir extremamente rápido, liberando enormes quantidades de energia em uma fração de segundo.
É isso que diferencia os usos civis e militares do urânio: em um reator, o combustível é apenas levemente enriquecido e a reação é deliberadamente desacelerada e cuidadosamente controlada, permitindo que a energia seja liberada gradualmente ao longo de meses ou anos. Em uma bomba, o objetivo é o oposto: deixar a reação ocorrer de forma precipitada e imediata.

Será que os sauditas vão construir uma bomba nuclear?
Na declaração que anunciou o acordo em 22 de julho, o Departamento de Energia dos EUA observou que, juntamente com o acordo de cooperação, também foi assinado um “acordo bilateral de salvaguardas”.
“Juntos, esses dois acordos estabelecem a base legal para uma parceria de décadas, avaliada em bilhões de dólares, que promove diversos objetivos econômicos e estratégicos prioritários, incluindo a não proliferação nuclear”, diz o comunicado.
O governo saudita também divulgou um comunicado afirmando que o acordo “representa uma extensão da cooperação já existente entre os dois países no setor de energia” e observou que ele ocorre após a visita do governante de fato da Arábia Saudita, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, a Washington em novembro passado.
Bin Salman declarou à CBS News em 2018 que seu país não planejava adquirir uma arma nuclear, mas que “sem dúvida, se o Irã desenvolvesse uma bomba nuclear, nós faríamos o mesmo o mais rápido possível”.
É importante notar que a Arábia Saudita vem tentando desenvolver um programa nuclear civil desde 2010. No entanto, atualmente não possui nenhuma usina nuclear e não tem capacidade para produzir energia nuclear, segundo a Associação Nuclear Mundial, organização internacional que representa a indústria global de energia nuclear.
Reportagem adicional de Fernando Duarte, do Serviço Mundial da BBC