Por mais estranho que pareça, quase 70% de tudo o que existe no Universo é feito de algo que a ciência simplesmente não faz ideia do que seja. Não é matéria, não é gás, não são estrelas. Então, o que é? A resposta para esse enigma atende pelo nome de energia escura, uma força invisível e misteriosa que está empurrando as galáxias para longe umas das outras em um ritmo cada vez mais veloz.
Trata-se do maior e mais intrigante mistério de todo o quebra-cabeça cósmico, o ingrediente secreto que dita os rumos do Universo. E esse enigma, que intriga os cientistas há décadas, pode estar prestes a ser desvendado com a ajuda do Observatório Vera C. Rubin. Instalado a 2.668 metros de altitude no topo da montanha Cerro Pachón, no norte do Chile, o complexo foi construído para realizar um levantamento de dez anos focado em mapear e investigar a fundo esse fenômeno.
O que é a energia escura e por que ela intriga a ciência
Na física tradicional, o vácuo deveria ser o nada absoluto. Mas os cientistas descobriram que o espaço vazio não é um cenário estático. Na verdade, ele possui uma energia própria que funciona como uma força de repulsão constante, empurrando as galáxias para longe umas das outras.
O que torna tudo tão fascinante – e perturbador ao mesmo tempo – é a proporção desse fenômeno na receita do cosmos. Segundo a NASA, essa força invisível representa a maior fatia de tudo o que existe, respondendo por cerca de 68% do Universo. Outros 27% são feitos de matéria escura, que funciona como uma espécie de “cola” invisível que impede as galáxias de se desmancharem.
Isso significa que tudo o que a humanidade pode ver, tocar, catalogar e medir – o que inclui planetas inteiros, estrelas brilhantes, nuvens de poeira e nós mesmos – soma míseros 5% de tudo o que existe.
A forma mais simples de imaginar a ação da energia escura é pensar nela como uma propriedade natural do próprio espaço vazio. Enquanto a força da gravidade atua incansavelmente para aproximar os corpos massivos, o vácuo parece carregar um “empurrão” embutido que força as estruturas a se distanciarem.

Na versão mais tradicional da teoria cosmológica, esse empurrão mantém sempre uma intensidade constante. Conforme o tecido do Universo se estica e cria mais espaço vazio, a densidade dessa energia permanece rigorosamente a mesma. É um comportamento bizarro, que rompe com a lógica de qualquer tipo de matéria tradicional.
Por gerações inteiras, essa força foi tratada pelas equipes de pesquisa puramente como um conceito matemático abstrato para fechar as contas dos livros teóricos. Mas o jogo mudou. Com o salto tecnológico das últimas décadas, os astrônomos finalmente começaram a rastrear as pegadas reais que ela deixa na malha do cosmos.
Expansão do Universo está acelerando
A grande virada na nossa compreensão do espaço aconteceu no final dos anos 1990. Dois grupos de cientistas usaram as explosões de estrelas moribundas, conhecidas como supernovas do tipo Ia, como faróis de referência no espaço profundo. Como o brilho real dessas supernovas é bem conhecido, os astrônomos conseguem calcular a que distância exata elas estão de nós.
O resultado foi um verdadeiro choque para a física: os dados mostraram que o Universo está se expandindo cada vez mais rápido. A descoberta foi tão revolucionária que rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2011 para os pesquisadores.
De acordo com o site oficial do Levantamento do Legado do Espaço e do Tempo (LSST), o megaprojeto de varredura de dez anos que será executado pelo Observatório Vera Rubin, o cenário ganhou força porque outros três métodos totalmente independentes chegaram à mesma conclusão.

O primeiro é a radiação cósmica de fundo, o eco de luz antigo que traz a receita do Universo primitivo. O segundo é o mapa tridimensional das galáxias, que usa a distância típica entre elas como uma régua cósmica. O terceiro é o uso de lentes gravitacionais fracas, observando como a gravidade da matéria escura entorta sutilmente a luz de galáxias distantes.
Técnicas diferentes, baseadas em fenômenos distintos, dando o mesmo veredito: a aceleração é real, e a energia escura é quem move essa engrenagem.
Por que persiste o mistério
Apesar de medirem esses efeitos com uma precisão cada vez mais impressionante, os físicos ainda enfrentam um impasse desconfortável. Falta uma teoria fundamental que diga, afinal, o que é essa energia. Se ela for a energia pura do vácuo, os cálculos da física quântica erram feio.
De acordo com o site Space.com, a previsão teórica da física quântica é 120 ordens de grandeza maior do que a realidade observada no céu. É frequentemente chamada de a pior previsão quantitativa da história da ciência. Para piorar, dados recentes do Instrumento de Espectroscopia da Energia Escura (DESI) trouxeram uma reviravolta que sacudiu os pilares da cosmologia.
Cruzando as medições de supernovas com a luz primordial, os cientistas encontraram indícios de que a influência da energia escura pode estar enfraquecendo com o tempo. Se isso se confirmar, a hipótese mais simples adotada pela ciência por décadas pode cair por terra. Hoje, os astrofísicos se dividem em três grandes suspeitas teóricas.
A primeira defende a Constante Cosmológica: a ideia clássica de que a energia escura é uma propriedade fixa do vácuo e nunca muda de intensidade. A segunda aposta em uma energia escura dinâmica, que muda ao longo das eras cósmicas. O experimento DESI apontou 99,995% de confiança nessa variação – um número alto, mas ainda abaixo do rigor de “quase-certeza” exigido pela astronomia para oficializar uma descoberta. A terceira via é a mais radical e propõe a gravidade modificada. Ou seja: a energia escura sequer existiria, e o que vemos seria apenas um sinal de que a famosa teoria da gravidade de Albert Einstein deixa de funcionar quando aplicada a distâncias incrivelmente gigantescas.

O diferencial do Vera Rubin na investigação
O astrônomo brasileiro Bruno Quint, doutor em astronomia pela Universidade de São Paulo (USP), cientista de operações e vice-chefe de suporte científico no Observatório Vera C. Rubin, destaca o diferencial do projeto. “O Rubin foi desenhado para atacar quatro áreas científicas, e a primeira delas é justamente sondar a energia escura e a matéria escura. O que nos dá a ferramenta certa é uma combinação rara: um telescópio de 8,4 metros acoplado à maior câmera digital já construída para astronomia, com 3,2 bilhões de pixels. Com isso, vamos gerar um novo retrato de todo o céu do hemisfério sul a cada poucas noites, ao longo de um levantamento de dez anos.”
Para o pesquisador, o valor do observatório vai muito além de ajustar números em uma tabela de dados ou descobrir uma nova casa decimal. O grande objetivo é testar os alicerces da nossa compreensão da realidade.
“Não se trata só de medir melhor um número. Combinar muitas observações leva à cosmologia de precisão, mas, mais importante, abre a possibilidade de testar a própria fundação da teoria. Se diferentes testes da energia escura derem resultados conflitantes, podemos estar diante de algo ainda mais interessante: um indício de que não compreendemos plenamente a natureza do espaço, do tempo e da gravidade”, explica Quint.
O que esperar do futuro
Segundo Quint, as imagens ultradetalhadas do Rubin vão alimentar os quatro métodos científicos de uma só vez, cercando o mistério por todos os lados. Elas vão medir distorções na forma de bilhões de galáxias e usar aglomerados estelares como réguas cósmicas. O telescópio também vai capturar supernovas em escala industrial, detectando milhões delas ao longo da década.
A rotina de trabalho do observatório avança rápido. Uma prévia com os dados de teste (o chamado Data Preview 2) deve ser liberada entre julho e setembro de 2026. O primeiro grande lote oficial de dados do levantamento (Data Release 1) virá cerca de um ano depois, trazendo o catálogo definitivo de galáxias para as análises.
A grande meta científica dos próximos anos é responder à pergunta que o DESI deixou em aberto: a energia escura muda ou não com o tempo? Quint lembra que a resposta definitiva vai exigir paciência da comunidade científica, pois depende do acúmulo de dados. “Com os indícios recentes do DESI sugerindo que ela pode estar evoluindo, os próximos anos serão sobre testar essa ideia com métodos independentes e muito mais dados. Não esperamos uma resposta no primeiro mês – a força do Rubin é estatística, e ela cresce conforme os anos de levantamento se acumulam.”

Segundo o cientista, seu verdadeiro entusiasmo mira o que ninguém consegue prever. “O sonho mais óbvio é também o mais ambicioso: provar, sem ambiguidade, que a energia escura não é uma simples constante – que ela evolui, ou então que é a própria gravidade que precisa ser reescrita em escalas cósmicas. Qualquer um dos dois seria uma virada comparável à descoberta da aceleração em 1998 e redefiniria o que entendemos por Universo. Os indícios atuais nos dão um alvo concreto para mirar. Mas, sendo honesto, o que mais me anima é outra coisa: o Rubin é, antes de tudo, uma máquina de descobrir o inesperado.”
O telescópio já deu amostras desse potencial de surpresa mesmo antes de começar a operar de forma oficial. Durante os testes de engenharia e comissionamento no Chile, os dados preliminares revelaram objetos raros e geraram publicações científicas antecipadas.
“Ele já mostrou isso antes mesmo de começar o levantamento oficial. Durante o comissionamento, os primeiros dados já renderam resultados empolgantes, incluindo o primeiro artigo científico submetido com dados do Rubin, novos asteroides reportados e observações do terceiro objeto interestelar já conhecido, o 3I/ATLAS. Quando você varre o céu inteiro repetidamente por dez anos, esbarra em fenômenos que ninguém pensou em procurar. O sonho que não dá para escrever no projeto é exatamente esse: responder perguntas que a gente ainda nem sabia formular”, conclui Quint.
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Contando com parceiros de trabalho
Para desvendar esse enigma, o Observatório Vera C. Rubin terá aliados de peso operando diretamente do espaço. Os dados colhidos em solo chileno vão se somar e se complementar com os de missões espaciais de ponta, como o telescópio Euclid, da Agência Espacial Europeia (ESA), que já está em órbita colhendo dados, e o Nancy Grace Roman, um supertelescópio da NASA cujo lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026.
Os três projetos atacam o mesmo problema por caminhos complementares, dividindo as tarefas de forma inteligente. Enquanto o Rubin cobre uma área gigantesca do céu a partir do chão, repetidas vezes, o Euclid e o Roman vão trabalhar no vácuo do espaço, livres da interferência e da turbulência da atmosfera terrestre.
Essa parceria resolve um dos maiores problemas crônicos da astronomia moderna: medir distâncias cósmicas com precisão absoluta. O Rubin analisa as cores na luz visível, ao mesmo tempo em que os olhos espaciais trazem a nitidez cirúrgica do infravermelho próximo.
Juntar esses bancos de dados vai reduzir drasticamente as margens de erro nas pesquisas de lentes gravitacionais. Enquanto o Euclid faz uma varredura mais ampla e rasa, o Roman focará em imagens incrivelmente profundas de alta qualidade e em um monitoramento exclusivo de supernovas. Como as fatias de céu mapeadas se cruzam, os cientistas vão combinar tudo em um único banco de dados. A união do volume do Rubin com a precisão espacial promete inaugurar uma nova era na nossa compreensão do Universo.
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