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segunda-feira, maio 4, 2026

Crise atual mostra que é hora de o mundo se livrar da dependência do petróleo, diz Santos

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O ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos Calderón veste camisa clara com estampa de palmeiras, calça e mocassins bege. Nobel da Paz em 2016 pelos esforços de pacificar o país no conflito com as Farc, chama a atenção para o bordado em seus sapatos. Em um deles está o símbolo da paz; no outro, uma folha. Foi presente da esposa, María Clemencia Rodríguez Múnera. “Ela me lembrou que sempre falo na necessidade de que a paz entre as nações e a paz com a natureza caminhem lado a lado e na mesma direção”.

A cena se deu em Santa Marta durante a 1ª Conferência para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis promovida pelos governos da Colômbia e dos Países Baixos, em abril. Sentado ao lado de outra ex-presidente, Mary Robinson, da Irlanda, dos climatologistas Carlos Nobre e Johan Rockström e de ativistas ambientais do Chad, do México e do Japão, Santos falava à imprensa como membro dos Planetary Guardians, rede global de líderes científicos, ativistas e pensadores dedicados a proteger os limites planetários e promover ações globais baseadas na ciência.

Fez referência à fala de líderes indígenas Kogi, povo ancestral da Sierra Nevada de Santa Marta, que desceram a cordilheira para dar um alerta aos representantes de 58 países reunidos na cidade colombiana além de cientistas, estudantes, empresários, sindicalistas, ambientalistas: a emergência climática está afetando as florestas, os rios, a vida.

Os Kogi vivem em isolamento como guardiões da Sierra Nevada, que consideram o centro do universo. Recordes de temperatura estão derretendo a neve do sistema montanhoso costeiro mais alto do mundo. “Há glaciares que estão lá há séculos e irão desaparecer em três ou quatro anos. E são a fonte de água de toda esta região na Colômbia”.

“Existe hoje um movimento negacionista mais conservador que não quer tomar as decisões necessárias e quer continuar com a dependência aos combustíveis fósseis e a esse modelo econômico de desenvolvimento”, disse, ao Valor.

“Não se pode esperar que todos os países estejam de acordo e que se tenha consenso. Esta conferência procura organizar melhor os países que estão convencidos disso para que possam atrair outros. Com argumentos fortes para que o mundo tome consciência, ainda mais agora, quando astronautas nos mostraram nosso planeta, tão frágil. Se não nos dermos conta de que estamos em chamas, morreremos todos queimados”. Continuou: “Há falta de sabedoria hoje. Sabedoria nas mãos de líderes prontos a agir em relação à mudança do clima. E rápido ”.

Existem mais de 130 conflitos no mundo neste momento, lembrou o ex-presidente, muitos impulsionados por disputas por água e migração ou dinâmicas alimentadas pela crise climática. Contou que foi solicitado a convencer membros do Conselho de Segurança da ONU a incluir a mudança do clima na agenda. “É um combustível para guerras. Mais a crise do clima afeta o mundo, mais conflitos vemos. Mas a proposta foi rejeitada por questões geopolíticas entre EUA, China e Rússia. É a geopolítica que faz com que o Conselho de Segurança não tome ações para frear a crise do clima”.

Ironicamente é pelo porto de Santa Marta que a Colômbia mais exporta carvão. “Talvez seja o porto que mais exporta carvão no mundo. Mas a mensagem é clara: mesmo países dependentes economicamente de combustíveis fósseis como a Colômbia, querem acabar com esta dependência”.

Criticou os organizadores por deixar de convidar Martin von Hildebrand, secretário-geral da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, a OTCA. É a única entidade intergovernamental dedicada exclusivamente à Amazônia e criada pelos oito países amazônicos com o objetivo de fortalecer a cooperação regional. O bioma possui papel fundamental na emergência climática e a OTCA é a voz multilateral da região. “A Amazônia é crucial neste contexto”.

Para Santos, o mundo falhou, na COP30, em Belém, em atingir dois objetivos: “Um acordo para nos distanciarmos dos combustíveis fósseis e outro para proteger a Amazônia”. Sobre os mapas do caminho para diminuir a dependência dos fósseis, advertiu: “Estes roadmaps precisam de campeões políticos em nível local, nacional e global. Se falharmos nisso, o clima nos queimará”, repetiu.

A América Latina é desintegrada. Se não falar com uma única voz nunca será relevante”

Lembrou que o TFFF, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado pelo Brasil, precisa de recursos. “Financiar a preservação da floresta amazônica não é caridade. É autopreservação para todos os países no mundo”. Disse que é preciso financiar este fundo antes da COP31, na Turquia, em novembro.

“O mundo está em uma encruzilhada. Temos dois modelos de desenvolvimento. Um é seguir com a extração (de fósseis) e com a incerteza. Digo incerteza porque vejam o que está acontecendo neste momento com a guerra na Ucrânia e os combustíveis fósseis, com a guerra no Irã e os combustíveis fósseis. Está se criando um efeito de bola de neve na estabilidade de países e regiões. E temos um modelo que lida com resiliência e compartilha prosperidade. Espero que se entenda que é este segundo modelo que precisamos. Para tanto é preciso vontade política e mobilização social para pressionar líderes à ação. Um dos problemas de hoje é a falta de liderança de longo prazo, que não dependa das próximas eleições e que olhe para o futuro do planeta. Porque o tempo não está do nosso lado”.

Lembrou que a região vai sofrer um El Niño muito forte. “É um fenômeno que é produto de falta de ação contra a mudança do clima. Espero que as pessoas tenham mais veemência para forçar seus líderes a agirem”. Santos disse que os Acordos de Paz previam processos para ajudar o tema socioambiental na Colômbia. “Havia todo um esquema para que as comunidades indígenas se convertessem em guardiões do planeta. Mas os governos que se seguiram não deram continuidade às propostas”.

Santos concordou que este é um ano eleitoral importante na região, tanto para países como a Colômbia como para o Brasil. À pergunta de como fazer com que as pessoas não votem em políticos negacionistas, respondeu: “Como dizem os antigos revolucionários, com todas as formas de luta. Com mensagens por todos os lados para que as pessoas entendam que é do seu próprio interesse que os líderes tomem decisões corretas”. Citou governos que baixaram o preço da gasolina aumentando subsídios. “ Esse tipo de ação de curto prazo por motivos eleitorais vai na direção contrária ao que estamos buscando e impede que o mundo tome ações concretas”.

Critica as divisões políticas na América Latina. “É uma região com imensas oportunidades. Poderia influenciar muito nas discussões mundiais se falássemos com uma única voz. Mas a América Latina está desintegrada. Se não falarmos com uma única voz nunca seremos relevantes”.

Santos observa que o crime organizado atua com muita coordenação na região. “Hoje o crime organizado está melhor preparado, com mais tecnologia e mais capacidade que os Estados”.

Ao concluir sua fala no painel, Santos voltou à história de seus sapatos. “Minha esposa me lembrou que esta mensagem de paz com a natureza que ouvi dos povos indígenas tem que ser fortalecida de todas as formas. No modo em que consumimos, na maneira como comemos, na roupa que usamos. Perguntei como fazer isso, e ela me deu este par de sapatos, um com o símbolo da paz e o outro com algo que pode ser interpretado como politicamente incorreto, porque é uma folha de maconha”.

Arrancou risos da plateia, mas seguiu sem sorrir. “A maconha de Santa Marta, nos anos 1960, foi conhecida como a melhor do mundo. Infelizmente isso foi muito ruim para o meu país. Foi como a Colômbia se tornou um exportador de drogas, de cocaína, que é uma das razões pelas quais a Amazônia está sendo desmatada”. Santos disse que sua mensagem é a de lutar pela causa da preservação do planeta de todas as formas possíveis. “Até mesmo com os sapatos que usamos”.

[Fonte Original]

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