As criptomoedas podem ganhar um papel mais relevante nas eleições brasileiras de 2026, não necessariamente como tema de campanha presidencial, mas como pauta de uma comunidade que busca influenciar o debate regulatório e legislativo. Essa foi a avaliação discutida por Marina Fagali e Cláudio Couto, cientista político e professor da FGV, em painel no evento de lançamento da Blockchain Rio 2026.
A discussão parte de um momento considerado decisivo pelo setor. Marina afirmou que 2026 é o primeiro ano do processo de regulação vigente para o mercado cripto, embora ainda haja pontos em construção tanto no âmbito infralegal, com Banco Central e CVM, quanto no Legislativo. Por isso, defendeu que a comunidade cripto esteja atenta ao voto e ao impacto que as eleições podem ter sobre o futuro da indústria.
Segundo ela, a pauta não deve ser tratada apenas como interesse de empresas, associações ou instituições do setor, mas como uma agenda de uma comunidade mais ampla, formada por usuários, desenvolvedores, investidores e pessoas que enxergam valor em cripto como infraestrutura tecnológica, financeira e social.
“É muito importante, num ano de eleições como o ano de 2026, que a gente esteja consciente também, na hora de votar, sobre o quanto isso pode ou não impactar a nossa comunidade”, afirmou Marina.
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O pano de fundo, segundo Cláudio Couto, é um cenário político ainda marcado pela polarização nacional entre PT e bolsonarismo. O cientista político ponderou, porém, que o ambiente eleitoral segue aberto e sujeito a eventos imprevisíveis, especialmente em um intervalo de vários meses até outubro.
Apesar do peso da disputa presidencial, Couto chamou atenção para a importância da eleição para o Congresso. Para ele, o Legislativo se tornou muito mais forte nos últimos anos, em parte pelo controle crescente sobre fatias do orçamento. Nesse contexto, a escolha de deputados e senadores passa a ter impacto direto sobre a capacidade de aprovar, travar ou alterar projetos que afetam setores específicos, como o de criptoativos.
“O Presidente da República está muito longe de ter o poder que teve até 2015”, afirmou. Segundo ele, o país caminhou para uma espécie de “governo congressual”, em que o Executivo muitas vezes precisa correr atrás da agenda imposta pelo Congresso.
O eleitor cripto como fiel da balança
Marina citou dados de uma pesquisa realizada pela Paradigma e Datafolha, em parceria com Hashdex e Coinbase, segundo os quais um em cada seis brasileiros tem ou já teve algum contato com criptoativos. Ela também destacou que o eleitor cripto seria politicamente mais engajado do que a média da população brasileira e teria uma distribuição ideológica menos concentrada em apenas um polo.
Nesta pesquisa, apenas 5,4% dos entrevistados ligados ao ecossistema cripto não souberam definir sua posição política, ante 16% na média da população brasileira. Marina também afirmou que esse eleitorado aparece dividido de forma próxima entre esquerda, centro e direita, com uma presença relativamente maior de pessoas que se identificam ao centro.
Para ela, isso indica que parte da comunidade pode votar de maneira menos partidária e mais orientada a pautas específicas, como segurança jurídica, liberdade para inovar e regulação equilibrada. “A gente não quer hoje ficar refém de um lado ou de outro na política. O que a gente quer? A gente quer que o ecossistema prospere”, disse.
Couto afirmou que esse eleitor intermediário costuma ser justamente o mais disputado em eleições polarizadas. Segundo ele, enquanto parte do eleitorado já está consolidada nos extremos da disputa, o voto de centro ou menos ideológico pode oscilar de acordo com avaliação de entregas, propostas e temas concretos.
“Ele é um fiel da balança. É o voto mais disputado”, disse o professor, ao comentar esse perfil de eleitor.
A possibilidade de uma pauta cripto organizada ganhar espaço, porém, depende mais do Legislativo do que da eleição presidencial. Couto explicou que, no Brasil, o sistema proporcional permite que candidatos temáticos consigam votos espalhados por todo o estado, sem depender necessariamente de uma base territorial concentrada. Isso abre espaço para campanhas associadas a causas, comunidades ou setores econômicos específicos.
Ainda assim, ele ponderou que, depois de eleitos, parlamentares são organizados principalmente pelos partidos, e não apenas por bancadas temáticas. Ou seja, uma eventual agenda pró-cripto precisaria dialogar não só com candidatos individuais, mas também com as estruturas partidárias e com a dinâmica de negociação do Congresso.
Marina defendeu que o próprio setor cripto precisa melhorar sua comunicação. Segundo ela, a comunidade não pode desinformar nem simplificar de forma equivocada temas complexos, especialmente em um momento em que a regulação está sendo construída. Para a executiva, o desafio é explicar a tecnologia para fora da bolha e mostrar que cripto não se resume a dinheiro ou investimento, mas envolve infraestrutura, transparência, segurança e construção de comunidade.
Na avaliação de Couto, a eleição de 2026 também será marcada por um novo elemento de incerteza: o uso de inteligência artificial nas campanhas. Para ele, o risco não se limita a deepfakes, mas inclui a possibilidade de IA ser usada no planejamento eleitoral e no direcionamento de mensagens a grupos específicos de eleitores, em um cenário de segmentação cada vez maior.
Ao final, Marina afirmou que o setor cripto pode dialogar com diferentes campos ideológicos. De um lado, conversa com pautas de liberdade econômica e desintermediação; de outro, com ideias de comunidade, construção coletiva e inclusão tecnológica. Por isso, defendeu que o ponto comum da comunidade seja cobrar dos eleitos uma regulação capaz de proteger usuários e dar segurança jurídica sem sufocar a inovação.
“Cada um vai ter o seu entendimento e a sua leitura política, mas tem uma coisa que a gente tem em comum: que independente de quem esteja lá e de quem seja eleito, que essas pessoas consigam responder aos nossos interesses como comunidade”, afirmou.
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